Título: Em Queda Livre (Segredos Diplomáticos - Vol. I)*
Autor: Ally Carter
Edição: 1
Editora: Guarda-Chuva
Páginas: 352
ISBN: 9788599537404
Nota: 4 de 5


SINOPSE: Aos dezesseis anos, Grace Blakely vê sua vida virar de cabeça para baixo ao se mudar para a capital do país fictício de Adria, onde seu avô materno, que também é embaixador americano, mora. Incapaz de aceitar as circunstâncias misteriosas que cercaram a morte de sua mãe três anos antes, ela tentará descobrir os segredos do seu passado e encontrar respostas para as dúvidas que a assombram.
Contando somente com a ajuda de seus novos amigos, filhos dos embaixadores das outras nações, ela se lança na busca por um assassino que ninguém mais acredita ser real, ao mesmo tempo em que se esforça para seguir os rígidos protocolos que regem a vida diplomática. Não será fácil para Grace se adaptar a esse novo mundo, especialmente quando ela começa a se apaixonar pelo único garoto proibido para ela: o melhor amigo de seu irmão mais velho.
Grace fará de tudo para ser a boa menina que todos esperam, mas os problemas parecem sempre encontrá-la, e qualquer deslize cometido na Ala das Embaixadas poderá deflagrar uma crise internacional, colocando sua vida e o destino das nações mais poderosas do mundo em risco.

Comentários:

Ally Carter, após os sucessos Ladrões de Elite e Garotas Gallagher, volta ao mercado editorial brasileiro com o YA "Em Queda Livre". Este é o primeiro livro da série 'Segredos Diplomáticos', lançado este ano pela Editora Guarda-Chuva, e foi também meu primeiro contato com a autora. E que sur-pre-sa!

Na trama, a jovem Grace está fragilizada emocionalmente graças a morte de sua mãe, na qual ela acredita ter sido assassinada. Ela tem certeza que o responsável é um homem misterioso dono de uma cicatriz no rosto, mas ninguém parece acreditar nela, especialmente quando todas as provas indicam que a morte foi acidental (através de um incêndio).

Por isso a família de Grace a encara como vítima de um transtorno emocional, levando-a à viver sob forte medicação e consultas psiquiátricas. Agora, três anos após o ocorrido - e depois de viver um longo período no hospital -, ela terá que voltar a Adria para viver com o seu avó, que é embaixador dos Estados Unidos da América. 

Lá, Grace não consegue viver longe de confusões, e se mostra determinada a provar que todos estão errados; que sua mãe foi, sim, assassinada. Aliás, é o que ela precisa para atestar sua sanidade, mesmo que isso provoque uma crise política na embaixada (cujas regra principal é a de não invadir outro 'país' sem ser chamado). E é assim que damos início a uma história carregada de aspectos interessantes.

O primeiro deles é a própria Grace. Sua personalidade triste (e ao mesmo tempo problemática) é apresentada de forma crua, verossímil e sem exageros (mesmo ela sendo a própria narradora). Isso resultou numa uma trama que trabalha mais o lado psicológico da personagem do que os mistérios em si, que só se evidenciam mais ao final do livro.

E por falar em final, o desfecho é surpreendente! E o mais bacana é que a autora conseguiu chegar neste ponto de forma sólida e natural, sem forçar a barra (o livro inteiro é assim, inclusive). E há surpresas que nos deixam ansiosos pela continuação, além da vontade de entender os reais eventos que ocorreram na noite da morte da mãe da Grace. Coisa que, aliás, é o que mais prende a atenção durante toda a trama.

A história (pelo menos até o fim do primeiro livro) não trás um romance propriamente dito (coisa que não me fez falta alguma), mas já nos dá indícios de que futuramente podem haver dois rapazes, Alexei e Noah, disputando o coração de Grace (até o momento eles são apenas amigos, que se mostram dispostos a ajudá-la a descobrir a verdade). 

Essa observação me fez pensar que esses personagens, assim como outros, não foram muito bem explorados/trabalhados neste livro. E isso me fez falta. Mas talvez isso tenha acontecido porque a obra é narrada em primeira pessoa, fato que nos limita a outras percepções e ideias. Ainda assim, vale a pena pelo modo como foi escrito... em termos de revisão, o livro está impecável.

No mais, aguardo pela continuação na esperança de uma surpresa ainda maior (e por explicações plausíveis que justifiquem os fatos finais). Confesso que não esperava muito, mas realmente me surpreendi. Agora estou crente que Ally Carter não irá decepcionar.

Recomendo o livro para os amantes do gênero YA, e para quem curte um bom suspense. Mas atenção, porque diferente de tantos outros, este é mais leve e requer paciência. Mesmo com um turbilhão de emoções... vai por mim.


*Cortesia cedida pela Editora Guarda-Chuva.


Título: Pequenas Grandes Mentiras*
Autor: Liane Moriarty
Edição: 1
Editora: Intrínseca 
Páginas: 400
ISBN: 9788580576795
Nota: 3,5 de 5

SINOPSE: Com muita bebida e pouca comida, o encontro de pais dos alunos da Escola Pirriwee tem tudo para dar errado. Fantasiados de Audrey Hepburn e Elvis, os adultos começam a discutir já no portão de entrada. E da varanda, onde um pequeno grupo se juntou, alguém cai e morre. Quem morreu? Foi acidente? Se foi homicídio, quem matou?
Pequenas Grandes Mentiras conta a história de três mulheres, cada uma delas diante de uma encruzilhada. Madeline é forte e decidida. No segundo casamento, está muito chateada porque a filha do primeiro relacionamento quer morar com o pai e a jovem madrasta. Não bastasse isso, Skye, a filha do ex-marido com a nova mulher, está matriculada no mesmo jardim de infância da caçula de Madeline. Já Celeste, mãe dos gêmeos Max e Josh, é uma mulher invejável. É magra, rica e bonita, e seu casamento com Perry parece perfeito demais para ser verdade. Celeste e Madeleine ficam amigas de Jane, a jovem mãe solteira que se mudou para a cidade com o filho, Ziggy, fruto de uma noite malsucedida. Quando Ziggy é acusado de bullying, as opiniões dos pais se dividem. As tensões nos pequenos grupos de mães vão aumentando até o fatídico dia em que alguém cai da varanda da escola e morre. Pais e professores têm impressões frequentemente contraditórias e a verdade fica difícil de ser alcançada.
Ao colocar em cena ex-maridos e segundas esposas, mãe e filhas, violência e escândalos familiares, Liane Moriarty escreveu um livro viciante, inteligente e bem-humorado, com observações perspicazes sobre a natureza humana.

Comentários:

Minha primeira experiência com Liane Moriarty foi um pouco conturbada. Com expectativas elevadas, iniciei a leitura de Pequenas Grandes Mentiras achando que encontraria uma história intrinsecamente polêmica. Mas, na realidade, o livro traz temas comuns sem grandes reviravoltas. E só.

Na trama temos três protagonistas: Jane, que se torna mãe solteira após um episódio do qual optou esquecer; Madeline, que ainda guarda rancor do ex-marido, principalmente quando sua filha parece preferir a companhia dele (detalhe que ela já é casada novamente e tem outros filhos); e Celeste, que, casada com um milionário e mãe filhos gêmeos, tinha tudo para ter uma vida incrível se não fosse por alguns problemas domésticos.

São dilemas bem distintos que acabam se cruzando graças a amizade das três, laço cultivado especialmente porque seus filhos estudam na mesma escola. Além do desenrolar (cotidiano) da vida dessas mulheres, mesclado aos fatos que acontecem na escola com as crianças, um crime acontece. E isso se torna o grande mistério do livro. O curioso é que, a priori, não se sabe quem é a vítima e porquê isso aconteceu, nem como.

O livro é estruturado em retrocesso até o dia do crime, e só é possível idealizar o que aconteceu, mesmo que de forma vaga, porque a autora nos oferece comentários, no início ou no fim de cada capítulo, de demais pais de alunos da escola sobre o acontecido. A princípio parece meio confuso, mas depois a leitura acaba fluindo sem grandes dificuldades, embora demore um pouco a engrenar.

Apesar do mistério, e dos problemas familiares das três mulheres, um ponto que merece destaque na trama é a atitude das crianças. Suas 'pequenas grandes mentiras', mesmo que nem sempre sejam cometidas pelos motivos errados (ou seria?), suscitam assuntos como bullying, convivo familiar, insegurança, falta de diálogo (e excesso, também) e apoio emocional.

A autora também põe em discussão a violência contra a mulher, mais segredos e mentiras (desta vez cometidas por adultos), e demais propostas que dão à trama um misto de temas e ousadia. E Liane cumpre o que promete! Aliás, a estrutura adotada contribui muito para isso.

Porém, e apesar de muitos elementos, a história é longa demais e às vezes até enfadonha. Levando em consideração suas abordagens, e aos vários temas pincelados, ainda assim ela se sustenta em um ciclo vicioso que a deixa longa sem necessidade. Além disso, não achei o crime e sua resolução extraordinários, embora o desfecho seja digno e apreciável.

Mesmo com algumas ressalvas, gostei do livro pelas novidades com que me deparei, especialmente pela estrutura. Por isso, recomendo a obra. Principalmente para quem já leu algo da Liane (não recomendo começar por este), ou para quem curte histórias cotidianas.


*Cortesia cedida pela Editora Intrínseca.




Título: Queria Ver Você Feliz
Autor: Adriana Falcão
Edição: 1
Editora: Intrínseca
Páginas: 160
ISBN: 9788580576092
Nota: 4 de 5

SINOPSE: Há quem o chame de Eros, Kama, Philea ou Ahava. O Amor, esse personagem mítico, desempenha o papel de narrador na história real do casal Caio e Maria Augusta, pais da autora Adriana Falcão. O Amor se descreve como perfeccionista e obcecado pelos detalhes, nada que o impeça de ser um bocado descuidado com as consequências dos sentimentos que provoca com suas flechas. Assim, com uma linguagem poética e ao mesmo tempo muito bem-humorada, Adriana revela para seus leitores aquilo que poderia ser descrito como uma história trágica protagonizada por dois personagens atormentados por seus demônios. Apaixonados, Caio e Maria Augusta se casam no Rio de Janeiro da década de 1950 e têm três filhas. Todo o sentimento que eles compartilham não impede que a personalidade exuberante de Maria Augusta se torne mais obsessiva e asfixiante com o passar do tempo, apesar dos medicamentos e dos tratamentos psiquiátricos. Caio, por sua vez, aprofunda uma melancolia que existia nele desde a adolescência, e que culmina nos anos 1970 em tentativas de suicídio. Mais do que uma história com um final dramático, trata-se de memórias afetivas que alternam momentos de intensa felicidade e outros tantos de dor, como acontece nas melhores famílias.

Comentários:

Queria Ver Você Feliz, da brasileira Adriana Falcão,  foi o livro sorteado para a 4ª edição do projeto Leitura Compartilhada, em parceria com os blogueiros Clóvis (De Frente com os Livros) e a Érika (Relicário). Isso significa que ele caiu de paraquedas em minha lista de leituras, e, dada a oportunidade, o encarei com seriedade, mesmo que sem grandes expectativas. E não foi me surpreendi?

Quem conta a história de Caio e Maria Augusta, desde que eram adolescentes, é o Amor. Um narrador peculiar, falante e ativo que passamos a conhecer além dos nossos sentimentos. Mas não é só isso. Além de suas percepções, a trama é composta (em sua maioria, aliás) por correspondências trocadas pelos jovens protagonistas.

Maria Augusta é ansiosa, afobada, agoniada, insistente... Caio é seco, paciente, melancólico e, por vezes, ciumento. Ainda assim, surge um amor avassalador - e a priori proibido; um amor repleto de fraquezas, e altos e baixos; um amor que os guiam às coisas boas da vida; um amor que acentua as suas imperfeições e que os levam a final dramático.

A sinopse relata outros pontos da trama, e chega a ser óbvio que a história ultrapassa décadas de relatos e justificativas do Amor mediante às cartas (transcritas) trocadas por Caio e Maria Augusta. Uma construção particular que resultou em um livro pequeno, e ao mesmo tempo com uma narrativa de múltiplos gêneros, imensa e profunda.

Apesar do título, o livro tem mais momentos dramáticos e difíceis do que felizes. Por isso, atribuo o grande mérito da obra a composição escrita escolhida pela Adriana, que, mesmo sendo filha do casal, não se deixou envolver emocionalmente. E mais: ela ainda consegue nos dar uma apanhado de reflexões sobre os ciclos da vida; sobre como o amor não é o suficiente para se ter uma vida feliz.

Talvez o livro tire do sério devido as atitude dos personagens, mas, na realidade, eles são/foram tão reais quanto nós. Ou seja, é assim que a ideia da fraqueza humana é acentuada, o que nos serve de autoavaliação sobre nossas atitudes, nossos desejos e a forma como queremos o outro feliz, bem como o modo como fazemos isso.

Confira no vídeo abaixo mais comentários sobre o incrível Queria Ver Você Feliz. A obra super recomendada para os amantes de histórias dramáticas, sobre a vida e o amor. Tudo isso com um toc especial de criatividade e realidade que poderá te surpreender, assim como me surpreendeu. Mas atenção: gostar ou não vai depender muito das suas expetativas e percepções de vida. Aventure-se!




Título: Segredos de Uma Noite de Verão*
Autor: Lisa Kleypas
Edição: 1
Editora: Arqueiro
Páginas: 288
ISBN: 9788580414271
Nota: 4,5 de 5

SINOPSE: Apesar de sua beleza e de seus modos encantadores, Annabelle Peyton nunca foi tirada para dançar nos eventos da sociedade londrina. Como qualquer moça de sua idade, ela mantém as esperanças de encontrar alguém, mas, sem um dote para oferecer e vendo a família em situação difícil, amor é um luxo ao qual não pode se dar.
Certa noite, em um dos bailes da temporada, conhece outras três moças também cansadas de ver o tempo passar sem ninguém para dividir sua vida. Juntas, as quatro dão início a um plano: usar todo o seu charme e sua astúcia feminina para encontrar um marido para cada, começando por Annabelle. No entanto, o admirador mais intrigante e persistente de Annabelle, o rico e poderoso Simon Hunt, não parece ter interesse em levá-la ao altar – apenas a prazeres irresistíveis em seu quarto. A jovem está decidida a rejeitar essa proposta, só que é cada vez mais difícil resistir à sedução do rapaz.
Assim, as amigas se esforçam para encontrar um pretendente mais apropriado para ela. Mas a tarefa se complica depois que, numa noite de verão, Annabelle se entrega aos beijos tentadores de Simon... e descobre que o amor é um jogo perigoso.

Comentários:

O mercado editorial acaba de receber mais uma trama fragmentada no gênero romances de época. Segredos de Uma Noite de Verão é o primeiro livro da série ''As Quatro Estações do Amor'', da autoria de Lisa Kleypas. E a saga das quatro solteironas não poderia ter começado melhor.

Annabelle Peyton está com quase 25 anos, não possui dote e vive em meio as dívidas da família. Isso significa que esta temporada é a sua última chance de mudar o rumo das coisas. Parece que seu destino está traçado: ou ela faz qualquer coisa para ser pedida em casamento, ou se torna uma solteirona endividada. Ou, o que é ainda pior, se torna amante de algum duque para se sustentar.

Para garantir um futuro sólido, ela e suas três amigas, Lilian, Daisy e Evie, montam um plano para que Annabelle seja a futura esposa de Lord Kendall, o Sir. talvez mais cobiçado da temporada. As moças parecem não ter muitas opções desta vez, o que deixa a 'caça' ainda mais interessante e divertida.

Em paralelo temos Simon Hunt, um plebeu, filho de um açougueiro e sem nenhum título de nobreza, mas que com muito esforço, inteligência e audácia conquistou uma grandiosa fortuna. Hunt, porém, não é bem visto pelas moças da alta sociedade, e isso inclui Annabelle, que sempre faz questão de esnobá-lo todas as vezes que eles se encontram nos bailes e eventos sociais.

Mesmo sabendo que Annabelle não faz parte da mesma classe social que ele, Simon faz questão de estar sempre a cercando. Suas intenções não parecem muito boas e a moça está ciente disso. Mas nada como um dia após o outro para que o caminho - em comum - desses personagens afetuosos e de personalidade marcante sejam enfim trilhados.

Por não ter nenhuma experiência anterior com as criações de Lisa Kleypas, fiquei bastante ansiosa por essa leitura, embora o gênero não seja tão imprevisível. Contudo, e para a minha total satisfação, me deparei com uma sequência de cenas e acontecimentos muito criativos, dinâmicos e até inesperados. A autora foi ousada e soube se aproveitar da trama nas diferentes fases da vida dos personagens principais.

E por falar em personagens, esses são os grandes destaques da obra. E não me refiro somente a Annabelle e ao Simon, mas também as amigas da Anna, ao irmão dela, a própria mamãe e outros que vocês irão conhecer no desenrolar dos fatos. Eles são todos bem característicos, e por isso renderam muitas cenas naturais e divertidas, prazerosas de serem lidas.

Nesse livro as coisas parecem não acontecer rápido demais. Isso me agradou porque o romance acaou sendo construído aos poucos (mas sem enrolação), em meio a situações bem inusitadas e especiais. Isso sem contar que uma leva de coisas importantes para a vivência dos protagonistas acontecem após eles finalmente ficarem juntos (isso não é spoiler, né!?), e eu achei essa ideia simplesmente genial.

Eu esperava por alguns desdobramentos, mas fui surpreendida por outros que acabaram me agradando muito. Um deles é trazer romance e amizade como foco. Além disso, a escrita da autora é uma delícia! Com certeza a leitura valeu muito a pena.

E já adianto que mal posso esperar pelo livro da Evie (pena que só é o terceiro, se não em engano), pois, além de muito tímida e gaga, ela tem uma tia que é uma bruxa... a mulher só a destrata e deixa sua auto estima lá em baixo. Mas enfim, essas são cenas para um próximo capítulo (ou livro...). Haha!

Super recomendado!

*Cortesia cedida pela Editora Arqueiro


Título: Lugares Escuros*
Autor: Gillian Flynn
Edição: 2/2015
Editora: Intrínseca
Páginas: 352
ISBN: 9788580575910
Nota: 4 de 5

SINOPSE: Libby Day tinha apenas sete anos quando testemunhou o brutal assassinato da mãe e das duas irmãs na fazenda da família. O acusado do crime foi seu irmão mais velho, Ben, que acabou condenado à prisão perpétua. Desde aquele dia, Libby passou a viver sem rumo. Uma vida paralisada no tempo, sem amigos, família ou trabalho. Mas, vinte e quatro anos depois, quando é procurada por um grupo de pessoas convencidas da inocência de seu irmão, Libby começa a se fazer as perguntas que até então nunca ousara formular. Será que a voz que ouviu naquela noite era mesmo a do irmão? Ben era considerado um desajustado na pequena cidade em que viviam, mas ele seria mesmo capaz de matar? Existiria algum segredo por trás daqueles assassinatos? Escrito com primor, Lugares Escuros não só mostra como a memória é passível de falhas, mas também evidencia as mentiras que uma criança pode contar a si mesma para superar um trauma.

Comentários:

Depois do incrível Garota Exemplar decidi que leria todos os livros da Gillian Flynn. Meio que depositei minha confiança na autora, por acreditar em sua capacidade de criar suspenses igualmente instigantes, mas distintos em suas particularidades. Felizmente minha teoria estava certa.

Lugares Escuros traz como foco o mistério do massacre da fazenda, cujas vítimas são Patty Day (32), Michelle Day (10) e Debby Day (9), mãe e filhas respectivamente. O principal suspeito e acusado é Ben Day, irmão mais velho de Libby Day, única sobrevivente e principal testemunha do crime.

A história dá início com Libby já adulta, aos 31 anos de idade (no ano do massacre, em 1985, ela tinha apenas 7 anos), sendo convidada por uma espécie de clã aficionado por crimes. Muitos deles acreditam verdadeiramente que Ben não foi o responsável pelos assassinatos, e por isso contam com a ajuda de Libby para solucionar esse enigma. Eles acreditam que ela fora coagida a dizer o que, na realidade, não presenciou.

Libby se vê em um beco sem saída, já que sua vida está um caos. Ela precisa de dinheiro mas ao mesmo tempo não quer fazer isso, reviver o passado. Para ela, não há dúvidas que Ben matou sua família. Ele nunca nem sequer contestou sua acusação; jamais fez algo para ser solto. Além disso, ela jura ter ouvido a voz dele no dia do massacre. Que prova maior que essa?

Mesmo relutante, ela integra ao grupo e decide investigar o que de fato aconteceu naquela noite, afinal, muitas coisas ainda não foram esclarecidas. Para tanto, o primeiro passo é visitar seu irmão na cadeia, mesmo nunca tendo feito isso antes. É dessa forma que Libby, aos poucos, irá tomar forças para descobrir sobre o seu passado, e, principalmente, sobre as mentiras na qual fora levada a viver por duas longas décadas.

Gillian Flynn intercala a trajetória detetivesca de Libby com flashbacks dos acontecimentos do dia dos crimes em capítulos ágeis, bem descritivos e cheios de direções diferentes. Somado a isso, sua ideia em envolver vários personagens, cenários e fatos em um enredo cujo foco é sólido desde o início, resultou em um suspense gradativo e com um desenvolvimento um tanto demorado.

Apesar disso, considero essas características importantes, especialmente pelos diversos elementos que surgem no meio de caminho. É um quebra-cabeças que faz do leitor um detetive, provavelmente ávido por pistas tanto quanto a Libby. Garanto que a curiosidade vai te deixar bastante nervoso(a), embora eu não tenha me surpreendido tanto quanto gostaria ao final. Inclusive, em partes, minhas suspeitas estavam certas.

Mas esses são somente detalhes que de forma alguma atrapalharam a minha satisfação em ler uma trama tão bem conduzida e inquietante. Flynn mostrou ser inteligente e perspicaz o bastante para a criar histórias diferentes, com personagens marcantes e bem construídos. Sua escrita é também outro ponto alto... a forma como ela descreve as situações, com acidez e ambição, é realmente empolgante e gratificante de se lê.

O livro está mais que recomendado. Talvez Libby não seja tão simpática quanto Amy Exemplar (entendedores entenderão... hahahahaha), mas garanto que vocês irão se entender e conduzirão, juntos, uma ótima investigação. E nada de sentir pena de Ben Day, amigos! Leiam e entendam o porquê.


*Cortesia cedida pela Editora Intrínseca

Título: Uma Curva no Tempo
Autor: Dani Atkins
Edição: 1
Editora: Arqueiro
Páginas: 256
ISBN: 9788580414134
Nota: 3,5 de 5

SINOPSE: A noite do acidente mudou tudo... agora, cinco anos depois, a vida de Rachel está desmoronando. Ela mora sozinha em Londres, num apartamento minúsculo, tem um emprego sem nenhuma perspectiva e vive culpada pela morte de seu melhor amigo. Ela daria tudo para voltar no tempo. Mas a vida não funciona assim... ou funciona?
A noite do acidente foi uma grande sorte... agora, cinco anos depois, a vida de Rachel é perfeita. Ela tem um noivo maravilhoso, pai e amigos adoráveis e a carreira com que sempre sonhou. Mas por que será que ela não consegue afastar as lembranças de uma vida muito diferente?

Comentários:

Uma Curva no Tempo, de Dani Atkins, foi feito para ser sentido. Pois é... nada de filosofias ou grandes reflexões. Aqui você irá encontrar uma trama que te prende pelo inesperado, pelo curioso e pela dualidade apresentada em um única história. Confesso pra vocês que o livro já me ganhou daí.

Rachel está prestes a ir a faculdade, mas antes que essa nova fase inicie, um trágico acidente envolvendo seus melhores amigos mudam totalmente o rumo da coisa: Jimmy, seu amigo de infância, morreu tentando salvá-la; seu namoro com Matt foi por água abaixo; seu sonho de cursar jornalismo é adiado; e seu sentimento de culpa acaba por afastar todos aqueles que um dia fizeram parte de sua vida.

Cinco anos depois, Rachel é apenas uma estranha em próprio apartamento. A culpa vive consumindo-a, e a infelicidade parece uma constante. Como se isso não bastasse, ela precisa voltar a sua antiga cidade para o casamento de Sarah, sua maior confidente na época de escola. Mas isso significa ter que reviver certas lembranças que a deixam melancólica e sem perspectivas de vida.

Nesta viagem um episódio curioso acontece: Rachel bate com a cabeça, acorda em um hospital, e lá percebe que tudo que aconteceu na sua vida nos últimos cinco anos, na realidade, não aconteceu. A verdade é que Rachel é noiva de Matt, trabalha como jornalista em uma revista de renome e que, bem, Jimmy não morreu.

Rachel se nega a crer que sua vida seja essa, e segue afirmando tudo que ela acredita ter vivido antes. Para os médico, isso não passa de uma amnésia, mas será mesmo? Nossa protagonista se vê numa luta para reconhecer sua vida atual, embora a anterior, por pior que seja, faça mais sentido. O que será que realmente aconteceu? Essa é, basicamente, a história que norteia o livro.

Dani Atkins tem uma escrita leve e consideravelmente atrativa. Porém, o que não me agradou muito foram os personagens, especialmente a Rachel (já que o livro é narrado em primeira pessoa). Ela é um mar de lamentações e melancolia, e personalidades assim costumam não me ganhar. Os outros, no geral, também não são muito convincentes e não se destacam. Pessoas fáceis de serem esquecidas, eu diria.

Outra coisa que me incomodou muito foi perceber que a autora acabou perdendo tempo demais tentando elaborar hipóteses na cabeça do leitor acerca dos mistérios que envolvem a trama. Isso, infelizmente, deixou um pouco de lado a verdadeira essência da história e o desenvolvimento dos próprios personagens. Gostaria que essa nova vida Rachel fosse melhor aproveitada, por exemplo.

Quero destacar ainda uma pequena observação sobre o desfecho e a 'resolução' do mistério. Para alguns foi totalmente previsível. Para mim, nem tanto. Sinceramente, nada me preparou para aquele final... foi rápido, cheio de surpresas, mas emocionante. Eu diria que este é o grande triunfo do livro... uma pena ter acontecido rápido demais.

Todas essas questões me fizeram pensar que, como um todo, o livro não foi o que eu esperava, mas cumpriu o papel de me entreter e de me fazer sentir (seja raiva, saudade ou tristeza). Portanto, recomendo, mas alerto para os que costumam ler livros do gênero... talvez neste vocês não se surpreenderão. E fica um alerta para quem não curte dramas, também. Mas se você costuma não se incomodar tanto com isso, a leitura valerá a pena.

Trecho:

"Fiquei ali na calçada e permiti que uma onda de lembranças me carregasse, um caleidoscópio de imagens incluindo todos aqueles anos. Ainda assim, ali não havia sombras escuras. Até cinco anos antes, esse era o único lar que eu conhecera e aquela casa representava as sensações de segurança e refúgio que haviam me escapado em todas as moradias que vieram depois. De pé na calçada, sentindo que o meu lugar ainda era ali, ao mesmo tempo em que estranhamente sabia que não era mais, tive uma pontada de nostalgia. E me dei conta, com um choque, que era a primeira vez que via a casa desde a noite do acidente." [P. 32-33]


Título: A Casa do Céu
Autor: Amanda Lindhout e Sara Corbett
Edição: 1
Editora: Novo Conceito
Páginas: 448
ISBN: 9788581633039
Nota: 4,5 de 5

SINOPSE: A Casa do Céu traz o relato dramático e libertador de uma mulher cuja curiosidade a levou até os lugares mais bonitos e remotos do mundo, países instáveis e perigosos, e também a passar quinze meses em um angustiante cativeiro. Essa é uma história de coragem, resiliência e beleza.

"Um relato vívido e emocionante sobre como Amanda manteve viva a luz interior e o espírito do perdão, mesmo quando se encontrava no coração das trevas." – Eckhart Tolle


Comentários:

Em novembro de 2009, o jornal O Estadão divulgou uma notícia com a seguinte manchete: Jornalistas sequestrados na Somália em 2008 são libertados. Eles se referiram à Amanda Lindhout e Nigel Brennan, protagonistas de A Casa do Céu. Por aí vocês podem imaginar sobre o quê a história se trata...

Apesar de estar centrado no desenrolar do sequestro dos jornalistas, como ficaram conhecidos, é importante salientar que o livro em si nos fornece relatos de fatos acontecidos desde muito antes do sequestro. Aliás, toda a trama trata-se de uma biografia da Amanda Lindhout.

Amanda inicia sua jornada nos contando parte de sua infância, como foi a separação dos seus pais, como foi sair de casa, de que forma surgiu seu amor por viagens, quais foram os primeiros lugares que ela visitou, e onde ela conheceu Nigel. Até então a leitura tem um estilo simplista, e nada parece ser extraordinário.

Isso até a Amanda acabar caindo de para-quedas no jornalismo, como fotógrafa freelancer. Mas esses trabalhos esporádicos (um deles foi no Afeganistão) davam apenas para pagar suas despesas de viagem, o que a faz percebe que ela não irá muito longe com isso, principalmente não sendo formada e não tendo feito sequer um cursinho de especialização.

Foi então em um furo de reportagem sobre as guerras da Somália que ela vê a oportunidade de prestígio e reconhecimento, lugar onde quase nenhum jornalista estava disposto a estar. Para enfrentar esse desafio, Amanda convida Nigel como colaborador, que sem delongas decide ajudá-la.

Ao chegarem por lá, ambos percebem o caos que estava aquele país, com guerras, sequestros e morte. Na realidade, era justamente isso que Amanda queria mostrar para o mundo, se não fosse por um grupo de guerrilheiros que os impediram antes mesmo do trabalho começar. Eles levaram Amanda e Nigel com a ideia de que eles lhes serviram como uma forte de dinheiro para a manutenção das guerras.

Infelizmente, as negociações não foram tão fáceis, principalmente porque a família de Amanda não tinha poder aquisitivo para pagar o resgate exigido. Enfim, uma série de questões fizeram com que eles enfrentassem uma experiência traumática durante longos e conflitantes 15 meses. 

Maus tratos, violência, estupro, fome, esperança, pequenas alegrias, ânsia pela morte e muitos outras coisas são descritas com intensidade nessa narrativa, numa dosagem dramática verossimilhante que te envolverá até as últimas palavras.

O livro  traz também uma comprovação do que é o fundamentalismo islâmico e como as mulheres são tratadas por lá. Tudo que acontece com eles, especialmente com a Amanda, mexe com a nossa cabeça e com o nosso coração, e acaba nos causando uma enorme revolta (eu fiquei assim, e certamente você entenderá o que eu quero dizer após a leitura). Sinceramente, não sei se teria a mesma força que ela para enfrentar uma situação desta.

Apesar disso, A Casa do Céu não é um livro sobre tragédias. A história de Amanda Lindhout vem carregada sobretudo de esperança, luta por sobrevivência e fé. Aceitar, saber perdoar e descobrir meios de seguir em frente também são excelentes ensinamentos que podemos extrair de sua narrativa.

A trama vale a pena para você que quer conhecer um pouco sobre a cultura islâmica, e que está disposto(a) a se deparar com a violência em suas diferentes formas. Lembre-se que estamos falando de um livro biográfico... A Casa do Céu parece um diário de memórias, com diferentes aspectos que irá te surpreender.

A obra fez parte do parte do meu projeto Leitura de Domingo (para quem não sabe sobre o que se trata, basta clicar AQUI), onde por 9 semanas eu estive ao lado de Amanda Lindhout, acompanhando-a em suas memórias sobre os 15 meses que até eu jamais serei capaz de esquecer.



Título: As Espiãs do dia D
Autor: Ken Follet
Edição: 1/2015
Editora: Arqueiro
Páginas: 448
ISBN: 9788580414097
Nota: 3 de 5

SINOPSE: Na fúria expansionista do Terceiro Reich, a França é tomada pelas tropas de Hitler. Os alemães ignoram quando e onde, mas estão cientes de que as forças aliadas planejam libertar a Europa. Para a oficial inglesa Felicity Clairet, nunca houve tanto em jogo. Ela sabe que a capacidade de Hitler repelir um ataque depende de suas linhas de comunicação. Assim, a dias da invasão pelos Aliados, não há meta mais importante que inutilizar a maior central telefônica da Europa, alojada num palácio na cidade de Sainte-Cécile. Porém, além de altamente vigiado, esse ponto estratégico é à prova de bombardeios. Quando Felicity e o marido, um dos líderes da Resistência francesa, tentam um ataque direto, Michel é baleado e seu grupo, dizimado.
Abalada pelas baixas sofridas e com sua credibilidade posta em questão por seus superiores, a oficial recebe uma última chance. Ela tem nove dias para formar uma equipe de mulheres e entrar no palácio sob o disfarce de faxineiras. Arriscando a vida para salvar milhões de pessoas, a equipe Jackdaws tentará explodir a fortaleza e aniquilar qualquer chance de comunicação alemã – mesmo sabendo que o inimigo pode estar à sua espera. 

Comentários:

Histórias centradas nas grandes guerras são irrecusáveis para mim. E quando isso envolve Ken Follet, autor do incrível O Buraco da Agulha (única referência que tenho do escritor), não há dúvidas: é leitura na certa. Portanto, chegou a hora de ler mais um eletrizante enredo de espionagem; chegou a hora do Dia D.

As Espiãs do Dia D é um thriller de ritmo cinematográfico inspirado na vida real. Como já aponta a sinopse, o livro centra em um grupo de mulheres comandadas pela major Felicity Clairet (ou simplesmente Flick) que arriscam tudo para ajudar na derrubada das linhas de comunicação alemães, na França, durante a Segunda Guerra Mundial. 

Gostaria de salientar duas características da trama: 1) mesmo demonstrando um notável valor devido as especialidades de cada uma, nenhuma das moças possuem experiências de guerra; 2) recrutamento, treinamento e missão acontecem em um período (curto) de nove dias. Aliás, a narrativa é apenas sobre os fatos quem ocorre nesse meio tempo. 

Os capítulos, de forma alternada, descrevem os planos da Gestapo e do exército alemão, que contam com a ajuda do agente Dieter cuja missão principal é destruir a Resistência Francesa; e dos aliados, em especial o grupo das moças que passam a ser conhecidas como as Jackdaws (a missão, como já fora salientado, é invadir a França para destruir a central de comunicação).

O Dia D (6 de junho de 1944) é conhecido por ser a data em que as tropas aliadas – com mais de 300 mil homens e milhares de armamentos – desembarcaram na Normandia (noroeste da França) para por em prática o que eles chamaram de Operação Overlord. Este é considerado por muitos historiadores como o dia mais importante da 2ª Guerra, por ter sido decisivo no avanço dos aliados rumo a vitória sobre a Alemanha em 1945.

E onde entram as mulheres nisso tudo? Segundo o próprio Follet, a interrupção das comunicações foi um fator importante para o sucesso da invasão, e foram elas as responsáveis por isso. Mas por que mulheres, e como elas ficaram aptas em tão pouco tempo? Essas são perguntas que você descobrirá no ato da leitura, que inclusive está regada de aventura, deslizes, enrascadas, tortura e, em especial, pela corrida contra o tempo.

Está aí o que mais me intrigou: a importância do ser feminino, representando o valor de outras pessoas anônimas que influenciaram o destino das nações envolvidas. Além disso, Ken Follet escreve muito bem, e o pano de fundo histórico é espetacular. Mas eu subestimei demais a história e acabei não tendo minhas expectativas completamente superadas.

Em primeiro lugar, o livro não agrada facilmente até as Jackdaws entrarem no avião rumo a França, fato que acontece já mais pro final da história. Segundo, por conta do tom hollywoodiano que o enredo passa, com cenas desnecessárias e dilemas amorosos pincelados sem muita importância (bom, isso dependente do seu ponto de vista). E terceiro porque eu não consegui me envolver tanto quanto gostaria. Acontece...

Tratando-se do tema, eu prefiro O Buraco da Agulha (que narra os dias turbulentos que antecederam o desembarque na Normandia, o famoso Dia D), por apresentar tramas mais ardilosas e intrigantes. Permito-me fazer a comparação porque estamos tratando do mesmo autor e de histórias que se passam praticamente na mesma época. 

Porém, As Espiãs do Dia D é ótimo para você que está a procura de um enredo de espionagem que apresenta a mulher como peça essencial, bem como suas forças e fraquezas. Lembrar da sua importância é reviver a história, mas poucos estão dispostos a isso. Exceto por Kem Follet. Portanto, recomendo. E torço por uma adaptação cinematográfica. Perfil para isso ele tem. É sonhar demais?



Título: A Insustentável Leveza do Ser
Autor: Milan Kundera
Edição: 4
Editora: Bis
Páginas: 413
ISBN: 9789896600624
Nota: 3,5 de 5

SINOPSE: Essa é a história de quatro adultos capazes de quase tudo para vivenciar o erotismo que desejam para si. Como limites, encontram um tempo histórico politicamente opressivo e o caráter enigmático da existência humana. Ainda assim, eles conseguem nos mostra como, na vida, tudo aquilo que escolhemos e apreciamos pela leveza acaba bem cedo se revelando de um peso insustentável. Apenas, talvez, a vivacidade e a mobilidade da inteligência escapam à condenação - as qualidades de que se compõe o romance e que pertencem a um universo que não é mais aquele do viver. 
Comentários:

Sinceramente, nunca passou pela minha cabeça ler Milan Kundera. Mas, como eu estou sempre aberta a novas experiências literárias, fiquei animada quando A Insustentável Leveza do Ser foi a obra sorteada para a terceira edição do Leitura Compartilhada com a Érika (Reliário) e o Clóvis (De Frente Com os Livros). Como esse é o livro mais popular de Kundera, acho que comecei com tudo. Ou quase.

Os personagens principais são Tereza, Tomas, Sabina e Franz. Tereza tem um espírito sensível e fora educada de forma repulsiva. Ao conhecer Tomas, sua felicidade é depositada inteiramente a ele, que, por outro lado, vive em meio a libertinagem e possui sérias dificuldades para aventurar-se amorosamente. Franz é idealista e sonhador, e, assim como Tereza, personifica o peso da vida. E Sabina é a versão feminina de Tomas; ambos representam a leveza. Em outras palavras, são eles que nos mostram, através de suas escolhas, o peso insustentável que baliza a vida.

A narrativa envolve as relações amorosas das personalidades citadas acima, unindo-se (quase sempre de forma conturbada) à filosofia, política, comunismo, mitologia, erotismo, comportamento humano, literatura, e muito mais. Embora o livro seja de 1982, a história se passa em 1968 e é permeada pela invasão russa à Tchecoslováquia e pelo clima de tensão política que pairava na cidade de Praga naqueles dias.

Mais do que uma enredo de teor político, porém, A Insustentável Leveza do Ser traz um verdadeiro ensaio filosófico. E isso de forma alguma é um problema, se não fosse pelas constantes "saídas" que o autor faz através de comentários excessivos, onde ele reflete as situações quase como um personagem. Em outras palavras, apesar de ser um narrador observador, Kundera acaba fazendo parte do enredo quando faz questão de não deixar nossos pensamentos livres. Isso, de certo modo, deixou a obra extensa, por vezes até cansativa, e com pouquíssimos diálogos graças as muitas observações.

Outras coisa que me incomodou foi a cronologia da história. Às vezes o autor, do nada, voltava para assuntos ou cenas já trabalhadas antes, como se tivesse lembrado naquele momento de contar uma coisa que já havia ficado para traz, fazendo questão também de suscitar a ideia sob o ponto de vista de outro personagem... enfim, eu não tenho problemas com histórias atemporais, mas, mesmo que esta tenha parecido mais com uma conversa informal, soou um pouco confuso.

Apesar disso, a leitura vale a pena pelas sublimes questões levantadas: qual o real sentido da vida? Devemos ser leves ou carregar o peso? Comprometer-se ou não? As respostas parecem óbvias, mas são mais complicadas do que imaginamos. De acordo com o autor, "procuramos sempre o peso das responsabilidades, quando o que na verdade almejamos é a leveza da liberdade".

Em contrapartida, Kundera também afirma: "seu drama não era o drama do peso, mas da leveza. O que se abatera sobre ela não era um fardo, mas a insustentável leveza do ser." Portanto, recomendo para quem se interessa por filosofia, história e política. Quem não tem aspiração por esses temas, ou não tem uma certa "bagagem" de vida, talvez não irá desfrutar dessa história de forma completa.

Mais considerações sobre A Insustentável Leveza do Ser podem ser adquiridas abaixo.


 

Título: A Festa é Minha e eu Choro se eu Quiser
Autor: Maria Clara Drummond
Edição: 1
Editora: Guarda-Chuva
Páginas: 84
ISBN: 9788599537299
Nota: 3,5 de 5

SINOPSE: Davi, o narrador do livro de estreia da jornalista carioca Maria Clara Drummond, sabe exatamente o que está atraindo para sua vida quando aceita uma proposta de emprego que se encaixa com suas aspirações, além de fazê-lo sair do Rio de Janeiro para São Paulo. À medida que sua carreira deslancha, a angústia e as incertezas aumentam, alojado de maneira incômoda no seu flat minimalista e clean.
O que torna Davi um narrador tão cativante não é o fato de encarar uma crise existencial em meio a antidepressivos, vernissages e bebedeiras, mas o quanto ele está ciente do processo pelo qual está passando, mesmo sem conseguir controlar muito bem sua necessidade de estar ao mesmo tempo dentro da cena e fora dela, de querer participar do universo cheio de glamour que sua fama recém adquirida lhe proporciona e ao mesmo tempo desprezar todo esse mundo de festas e drogas.
Comentários:

Sabe aquele tipo de leitura que você não espera fazer? Melhor ainda é quando isso ocorre e a surpresa é boa, certo? Recentemente eu tive essa através de A Festa é Minha e eu Choro se eu Quiser, de Maria Clara Drummond. O livro foi enviado pela Editora Guarda-Chuva, parceira do blog.

A trama nos apresenta Davi, narrador e personagem principal, aspirante a cineasta e um fiel baladeiro. Davi tem muitos amigos, mas parece não conseguir confiar a eles suas crises existenciais. Para ele, as pessoas não curtem questionar a vida, tampouco baixo astral e problemas alheios. E quem acaba se tornando sua grande vítima para um desabafo sincero? O leitor, é claro.

Davi tem problemas na consciência, e por isso acaba se afastando dos amigos de infância para não ter que falar sobre sua vida; sobre sua felicidade (ou falta dela). Ele acredita que ser feliz requer um peso, e expõe a ideia de que ter sucesso pode não ser exatamente o que parece.

É esse o dilema que norteia as 84 páginas do livro, onde somos levados a pensar sobre o que o dinheiro pode ou não comprar. Parecer um pouco clichê, mas, na realidade, a autora trata a temática na  percepção real da nossa geração, afinal, vivemos em uma sociedade que dá vez sobretudo à fama – por vezes vencida pela melancolia.

A simplicidade é um elemento de destaque no livro, assim como os incontáveis trechos reflexivos e profundos. A trama, no entanto, não é aprofundada, por isso é difícil apegar-se aos personagens. Contudo, ela cumpre o papel de suscitar questões filosóficas interessantes para os amantes da vida.

O que me incomodou foi apenas a estrutura do texto. Sempre corrido, instantâneo e sem quebra de parágrafos. Evidentemente, isso nos mostra a consciência desconexa de Davi, mas ainda assim tive a impressão de estar lendo algo desfigurado. Por outro lado, o livro é fisicamente maravilhoso. A Editora fez um belo trabalho de edição, desde a capa à divisão dos capítulos, fonte e tipo de folha... ficou tudo muito caprichado.

Portando, fica a recomendação para quem quer pensar sobre os problemas da geração (a partir dos anos 2000), para quem curte uma boa filosofia de vida (numa visão atual e jovem, também), ou para quem quer experimentar algo novo... começar por um trabalho nacional talvez seja uma ótima pedida.


Título: Para Sir Phillip, com amor
Autor: Julia Quinn
Edição: 1
Editora: Arqueiro
Páginas: 288
ISBN: 9788580413625
Nota: 4 de 4

SINOPSE: Eloise Bridgerton é uma jovem simpática e extrovertida, cuja forma preferida de comunicação sempre foram as cartas. Quando uma prima distante morre, ela decide escrever para o viúvo e oferecer suas condolências.
Ao ser surpreendido por um gesto tão amável vindo de uma desconhecida, Sir Phillip resolve retribuir a atenção com uma resposta. E é assim que eles começam uma instigante troca de correspondências. 
Logo ele descobre que Eloise, além de uma solteirona que nunca encontrou o par perfeito, é uma confidente de rara inteligência. E ela fica sabendo que Sir Phillip é um cavalheiro honrado que quer encontrar uma esposa para ajudá-lo na criação de seus dois filhos órfãos. Após alguns meses, uma das cartas traz uma proposta peculiar: o que Eloise acharia de passar uma temporada com Sir Phillip para os dois se conhecerem melhor e, caso se deem bem, pensarem em se casar?
Ela aceita o convite, mas, em pouco tempo, eles se dão conta de que, ao vivo, as coisas não são bem como imaginaram. Ela é voluntariosa e não para de falar, e ele é temperamental e rude, com um comportamento bem diferente dos homens da alta sociedade londrina. Apesar disso, nos raros momentos em que Eloise fecha a boca, Phillip só pensa em beijá-la. E cada vez que ele sorri, o resto do mundo desaparece e ela só quer se jogar em seus braços. Agora os dois precisam descobrir se, mesmo com todas as suas imperfeições, foram feitos um para o outro.

Comentários:

A série Os Bridgertons foi uma das mais notáveis surpresas literárias que tive em 2014. E se você acompanha este blog há algum tempo, com certeza já deve saber o quanto eu adoro a Julia Quinn. Logo, não é preciso medir minha ansiedade em relação ao Para Sir. Phillip, com amor... desta vez, porém, não foi somente pela expectativa de uma novo enredo, mas principalmente pela curiosidade em descobrir de que modo a autora iria sobressair em relação as histórias anteriores.

E as inovações são perceptíveis logo de início. Diferente dos outros livros, neste não temos o cenário londrino e a presença constante da família Bridgerton, tampouco um romance que vai além do casual. Agora, o que está em jogo não é apenas uma história de amor em ascensão, mas a vida de duas pessoas maduras (ok, Eloise nunca fora casada, diferente de Phillip. Por outro lado, ela está prestes a se tornar uma balzaquiana e solteirona) em torno de suas crianças (insolentes) que convivem com a perda da mãe e com a costumeira ausência do pai.

A chegada de Eloise a casa de Phillip (de forma clandestina, devo salientar), traz uma série de conflitos pessoais e familiares bem interessantes, dando ao enredo questões novas das já trabalhadas nas histórias anteriores. Isso só reafirma que, apesar do desfecho previsível, é sempre difícil saber como será o desenvolvimento dos livros dessa série. Mas, no geral, sua escrita divertida e dinâmica permanecem, dando um tom leve e deliciosamente instigante à narrativa.

Um dos elementos que eu mais gostei neste livro foi a presença – no início de cada capítulo – de antigas cartas de Eloise endereçada aos seus parentes. Evidentemente isso veio para substituir as queridíssimas crônicas de Lady Whistledown (entendedores entenderão)... bom, é difícil esquecê-las, mas o trabalho foi tão bem feito, que a saudade acaba não sendo pesarosa.

Outra coisa muito legal desta obra é a forte presença de um casal muito querido pelos leitores assíduos de Julia Quinn. Quem ama Benedict e Sophie (que, para que não sabe, são os personagens principais de Um Perfeito Cavalheiro), certamente vai adorar muitas cenas desse livro. E, além deles, os outros irmãos Bridgertons fazem excelentes aparições... é impossível não sentir aquela "velha" sensação de deja-vú.

Apesar das novidades, e de sentir falta de alguns elementos característicos do gênero (não comprei muito essa ideia de Eloise simplesmente se instalar na casa de um desconhecido e achar que isso é perfeitamente normal, por exemplo), a única coisa que não me apeteceu tanto foram os novos personagens. Realmente, eles não conseguiram me conquistar de cara. Phillip é um deles, que de típico mocinho sedutor não tem nada. 

Enfim, temos aqui uma proposta diferente que vale a pena ser conferida. Por isso, não deixe de ler este livro caso você goste de Julia Quinn tanto quanto eu. E para você que nunca leu nada dela antes e deseja se aventurar por essa série, aconselho que inicie pelo primeiro ou, pelo menos, pelo terceiro livro. Vamos evitar spoilers, mesmo que nocivos, sim!?

Confira minhas impressões sobre os livros anteriores:
O Duque e Eu (Livro I)
O Visconde Que Me Amava (Livro II)
Um Perfeito Cavalheiro (Livro III)

Os Segredos de Colin Bridgerton (Livro IV)




Título: A Passagem
Autor: Justin Cronin
Edição: 1/2010
Editora: Sextante
Páginas: 816
ISBN: 8599296820
Nota: 3,5

SINOPSE: Quase um século depois que uma pesquisa científica financiada pelo Exército dos Estados Unidos foge do controle, tudo o que resta é uma paisagem apocalíptica. As cobaias utilizadas nos experimentos – prisioneiros a caminho do corredor da morte – escaparam do laboratório e iniciaram uma terrível carnificina, alimentando-se de qualquer ser com sangue nas veias e espalhando por todo o continente o vírus inoculado nelas. Um em cada 10 habitantes pode ter sido infectado. Os outros nove se tornaram presas desses virais, criaturas animalescas extremamente ágeis e fortes cujos únicos pontos fracos parecem ser a hipersensibilidade à luz e uma pequena área frágil próxima ao esterno.
Em uma fortificação construída nas montanhas, cercada de muralhas de concreto e holofotes superpotentes, uma comunidade tenta sobreviver aos constantes ataques noturnos. Mas a precária estrutura que a protege está com os dias contados: as baterias que alimentam as luzes começam a falhar e uma invasão é iminente.
Não se sabe o que aconteceu ao resto do mundo: a comunicação foi cortada, não há governo e o Exército nunca cumpriu a promessa de voltar. Provavelmente estão todos mortos. Mas a chegada de uma misteriosa andarilha traz novas expectativas: ao que tudo indica, ela tem as mesmas habilidades dos virais, mas não sua necessidade de sangue. Agarrando-se a essa esperança, um grupo parte da Colônia para buscar mais sobreviventes – e a verdade fora dos muros.

Comentários

Suspense, ficção científica, múltiplos personagens, um cenário apocalíptico e um salto no tempo de aproximadamente um século. Esses são alguns dos elementos que compõe o livro A Passagem, escrito por Justin Cronin. O primeiro de uma trilogia que, ao que parece, se unirá aos épicos do século XXI. Bom, estrutura ele tem para tanto, porém, com algumas ressalvas.

Complementando a sinopse – que a meu ver traz um excelente resumo da obra –, a história dá início com aquela que será a fundamental para o desenrolar de todo o enredo. Me refiro a Amy Harper Bellafonte, a Garota de Lugar Nenhum. Amy ainda é uma menina quando é levada para o laboratório onde dose prisioneiros condenados a morte se encontram. Eles se tornaram cobaias de uma experiência secreta do Governo Americano, para o teste de um suposto vírus manipulado com a propósito de curar algumas doenças.

Mas é graças a isso que a América (pelo menos esse é o cenário da trama) passa a experimentar a iminência do apocalipse, que se instaura com rapidez e violência. Deste modo, passamos a presenciar uma sociedade dividida por humanos, que retrocedem e vivem pela busca da sobrevivência, e "virais", isto é, os infectados que fizeram do mundo um mar de escuridão. 

E onde exatamente Amy se insere? Ela reaparece cerca de 100 anos depois, em um futuro pós-apocalíptico, naquilo que o autor chama de Primeira Colônia, onde existem apenas poucos sobreviventes refugiados. O mais incrível disso tudo é que Amy está jovem! Bom, ela foi a 13ª cobaia do experimento, mas seu procedimento foi o único que não saiu do controle. Agora ela parece ser a única e última esperança de sobrevivência. Mas como e por quê?

O livro requer uma leitura lenda e cuidadosa. Além do salto no tempo, e das várias descrições, muitos personagens aparecem no meio do caminho, principalmente após a segunda parte do livro. Inclusive, a obra é divida em várias partes, e os capítulos são um pouco extensos. Apesar disso, e da quantidade de páginas em geral, os números parecem um detalhe pequeno... se não fosse pelo excesso de detalhes descritos pelo autor.

De início, essa riqueza é precisa e necessária. Incrivelmente envolvente, eu diria. Mas a medida que o a história vai se desenvolvendo, Cronin exagera ao ir fundo demais, deixando algumas partes um pouco confusas e até repetitivas. Além disso, ele acresce cenas que, para mim, foram totalmente desnecessárias e cansativas. O engraçado é que, ao mesmo tempo em que ele excede em alguns pontos, em outros eles acaba sendo impreciso, a exemplo dos próprios virais, que não são claramente narrados.

Cronin escreve bem, e com certeza criou uma história rica, com elementos novos e instigantes. Só para vocês terem uma noção, há partes em que um diário (de uma sobrevivente da Primeira Colônia) é apresentando em uma conferência num futuro ainda mais distante. Ou seja, muita coisa (boa, espero) vem aí... espero que "Os Dose", continuação da trilogia, se supere nestes pequenos detalhes apontados, e que nos traga coisas que realmente sustentem as dúvidas deixadas para trás.

Portanto, recomendo para aqueles que curtem o gênero. Isso é fundamental para que você passe por cima das inconsistências sem querer desistir, principalmente por tratarmos aqui de um livro consideravelmente grande.

A Passagem fez parte do meu projeto #LeituraDeDomingoUL. Abaixo, segue o vídeo onde eu comento mais sobre o mesmo e, principalmente, como foi realizar esta leitura durante 17 domingos. Não deixe de conferir!!!



Título: Eleanor & Park
Autor: Rainbow Rowell
Edição: 2014
Editora: Novo Século
Páginas: 328
ISBN: 9788542801255
Nota: 3 de 5

SINOPSE: Eleanor & Park é engraçado, triste, sarcástico, sincero e, acima de tudo, geek. Os personagens que dão título ao livro são dois jovens vizinhos de dezesseis anos. Park, descendente de coreanos e apaixonado por música e quadrinhos, não chega exatamente a ser popular, mas consegue não ser incomodado pelos colegas de escola. Eleanor, ruiva, sempre vestida com roupas estranhas e “grande” (ela pensa em si própria como gorda), é a filha mais velha de uma problemática família. Os dois se encontram no ônibus escolar todos os dias. Apesar de uma certa relutância no início, começam a conversar, enquanto dividem os quadrinhos de X-Men e Watchmen. E nem a tiração de sarro dos amigos e a desaprovação da família impede que Eleanor e Park se apaixonem, ao som de The Cure e Smiths. Esta é uma história sobre o primeiro amor, sobre como ele é invariavelmente intenso e quase sempre fadado a quebrar corações. Um amor que faz você se sentir desesperado e esperançoso ao mesmo tempo.

Comentários:

A chegada dos livros da americana Rainbow Rowell tem provocado o maior rebuliço no universo literário – devemos levar em consideração que seu foco tem sido o jovem-adulto, público este que vem se mostrando em ascensão. De todas as tramas publicadas, Eleanor & Park foi a que mais me interessou, a priori, principalmente diante de tantos comentários positivos na blogosfera literária. Mas foi graças ao projeto Leitura Compartilhada, realizado em parceria com os blogueiros Clóvis e Érika, que eu atestei que a aceitação universal nem sempre conta com a minha.

Eleanor é ruiva, gordinha e meio depressiva; Park é descendente de coreano, um pouco reservado e muito romântico. Apesar de diferentes, eles acabaram se apaixonando após algumas idas e vindas no ônibus escolar, mas levar um romance aos dezesseis anos, ainda mais com as adversidades impostas pela conturbada família dela, tornou-se algo bastante conflituoso.

Mesmo assim, ambos viveram um romance avassalador (para eles). Para Park, Eleanor é como o ar, essencial para a sua existência; para Eleanor, Park é a pessoa que a descobriu, seu grande e primeiro amor. E assim segue a história, mostrando a construção e o amadurecimento do romance. Isso, inclusive, deu lugar ao bullying e aos conflitos familiares indicados na sinopse, e até mesmo no início do livro (essas questões são apenas pinceladas).

Seguem algumas considerações: mesmo que a história se passe em 1986, eu achei os personagens principais muito bobos para a idade deles. Além disso, o relacionamento em si é um pouco exagerado, assim como vários outros elementos do livro. Todo mundo é apático em relação ao que Eleanor vive na casa dela, ao mesmo tempo em que são indiferentes ao fato dela sempre estar na casa dele, todos os dias. Ninguém descobre nada ou tenta resolver as situações complexas que surgem. O enredo, no geral, não evolui. Até o romance deles acabam empacando em dados momentos.

Apesar disso ei gostei muito da escrita da autora e da estrutura adotada por ela. Os capítulos são narrados em terceira pessoa, mas a todo momento há uma mescla de percepções, migrando de Eleanor a Park, o que deu um dinamismo bem bacana ao livro. Saliento ainda as muitas referências que Rainbow faz às coisas da época, que vão de músicas a quadrinhos. São estratégias para que o leitor se identifique com a trama, e isso dá super certo.

Porém, mesmo assim, eu me senti bem frustrada. Existem pontos positivos, como já citados acima – acrescidos aos poucos personagens que te conquistam pela vivacidade que eles possuem (a exemplo da família do Park, que é maravilhosa) –, mas no geral não há nada de extraordinário. Além do péssimo desfecho, as questões trabalhadas no gênero jovem-adulto deram lugar a um dramático romance adolescente, o que para mim soou como um livro infanto-juvenil.

Enfim, eu esperava bem mais desta história, ainda mais porque ela parece ter tocado muita gente. Mas para mim foi o contrário: o romance não tem nada de novo, e a trama deixa muitas pontas soltas. Recomendo para quem está procurando um passatempo bem levinho, ou um entrenimento para se distrair.

Para conferir mais comentários sobre o livro pautado, assista abaixo o vídeo da 2ª edição do nosso projeto. Nele você também irá saber qual será o título da nossa próxima Leitura Compartilhada.




Título: O Lago Místico
Autor: Kristin Hannah
Edição: 1/2014
Editora: Novo Conceito
Páginas: 368
ISBN: 9788581635811
Nota: 4 de 5

SINOPSE: Esposa e mãe perfeita, Annie vê o seu mundo desabar de uma hora para outra quando é abandonada pelo marido. A fuga momentânea é a pequena comunidade de Mystic, lugar onde ela cresceu e onde seu pai ainda vive. Lá, Annie começa a se reerguer novamente, descobrindo o amor por si mesma, por um velho amigo solitário e por uma garotinha que acaba de perder a mãe.
Tudo está se encaixando na vida de Annie. Nick e Izzy se tornaram uma parte importante de seu processo de cura, e ela também se tornou essencial para a sobrevivência da relação entre pai e filha. Até que o seu ex-marido reaparece... e a tranquilidade rapidamente dá lugar ao desespero.

Comentários:

Não é segredo para ninguém a imensa admiração que tenho por Kristin Hannah. Sua habilidade de enfatizar as fraquezas humanas faz das suas histórias tão verossímeis quanto a realidade. E é justamente isso que mais me atrai nos livros da autora: o infortúnio sem exagero. Em O Lago Místico não foi diferente... nele vivemos na linha da versatilidade, assim como os outros, só que, desta vez, com algumas ressalvas.

Annie é uma mulher de quase 40 anos que sempre viveu para a família. Mas sua dedicação integral ao lar, a filha e ao marido, de uma hora para outra, simplesmente evapora: Blake, com quem era casada há 20 anos, acabar de perdir o divórcio, enquanto Natalie, sua menina de 17 anos, parte em viagem para o seu primeiro grande intercâmbio. E é assim que seu mundo perfeito começa a sair dos trilhos.

Desnorteada, Annie resolve ir a pequena cidade de Mystic, a procura de um recomeço. Sua redenção, no entanto, dá espaço aos problemas vividos por sua antiga paixão, Nick. Ele, que tornou-se um alcoólatra após a morte de sua esposa, e a pequena Izzy, que desde a morte da mãe nega-se a falar, passam a ganhar a total e exclusiva atenção de Annie. Será aceitável desistir do nosso próprio recomeço para empenhar-se pelo outro?

A priori, temos a impressão que Annie será a nossa grande protagonista, mas quando sua história e a de Nick se cruzam, passamos a ir além dos dilemas do divórcio e da vida a dois. E não são apenas esses temas trabalhados por Kristin Hannah. A personagem Izzy, por exemplo, rouba os holofotes quando entra em foco. Trata-se de uma criança de 6 anos que precisa lidar com a morte da mãe e com o total afastamento do pai, com quem sempre tivera uma relação profunda de amor.

Todas essas questão dão a trama diferentes perspectivas de reflexão. De que maneira aprendemos a lidar com uma perda? Como resgatar um relacionamento fragilizado por traições e/ou distanciamento? Como minimizar a tristeza e a decepção? Qual a melhor maneira de adentrar o recomeço? Como enfrentamos o medo de viver coisas novas? Essas são apenas algumas das várias discussões que emergem através de personagens tão simplistas e frágeis. Personagens, inclusive, comuns na vida real.

No geral, o que mais me agradou na trama foram as semelhanças nas histórias de Nick e Annie, cujos enfoques foram trabalhados de modos diferentes. Embora a autora trate de questões usuais, sua narrativa nos faz viver - e sofrer - com eles, nos emociona e nos coloca na mesma posição difícil em que eles se encontram. Kristin Hannah nos levar a pensar e a tomar decisões, e a refletir sobre a vida e suas nuances. É esse mar de intensidade transmitidos de forma tão imponente que me faz idolatrar a autora.

Porém, nem tudo são flores. Confesso que me incomodei um pouco com os rumos que a história tomou. Acredito que tenha sido proposital, já que o livro conta, ao final, com uma entrevista concedida à escritora Jennifer Morgan Gray... lá ponderamos acerca do processo de produção do livro de um modo geral. Mas, ainda assim, vi a obra ser simplesmente encerrada, deixando algumas pontas soltas. Prefiro acreditar que isso foi feito para sairmos da nossa zona de conforto; para criarmos em nossas cabeças a continuação desta história.

Além disso, eu não me simpatizei diretamente com os personagens. Eu gostei muito da história graças as suas diversas lacunas de pensamento, mas as personalidades não me ganharam. Acho que isso tem a ver com a minha praticidade, e eles são muito conflituosos. Mas não são todos, a exemplo da Natalie, que tem uma personalidade e maturidade surpreendentes. É uma pena que ela apareça tão pouco. E tem a Izzy, também, que me lembrou muito a Anne, de Jogando Xadrez Com os Anjos (Fabiane Ribeiro). Ela é encantadora e fez meu coração derreter.

Recomendo o livro para você que curte uma bom drama narrado (por um observador) sob diferentes pontos de vista. Esse é o tipo de história que envolve vários tipos de amor, e com certeza despertará em você diversas emoções. Vale a pena!



Título: Cadê Você Bernadette?
Autor: Maria Semple
Edição: 1/2013
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 376
ISBN: 9788535922936
Nota: 4,5 de 5

SINOPSE: Bernadette Fox é notável. Aos olhos de seu marido, um guru tecnológico da Microsoft e rock star do mundo nerd, ela se torna mais maníaca a cada dia; para as demais mães da Galer Street, escola liberal frequentada pela elite de Seattle, ela só causa desgosto; os especialistas em design ainda a consideram uma gênia da arquitetura sustentável; e Bee, sua filha de quinze anos, acha que tem a melhor mãe do mundo.
Até que Bernadette desaparece do mapa. Tudo começa quando Bee mostra seu boletim (impecável) e reivindica a prometida recompensa: uma viagem de família à Antártida. Mas para Bernadette, que ojeriza a Seattle e às pessoas em geral, uma viagem ao extremo sul do planeta é uma perspectiva um tanto problemática. 
Para encontrar sua mãe, Bee compila e-mails, documentos oficiais e correspondências secretas, buscando entender quem é essa mulher que ela acreditava conhecer tão bem e o motivo de seu desaparecimento. Sem sentimentalismos, mas com muita empatia, Cadê você, Bernadette? trata do amor incondicional de uma filha por sua mãe imperfeita.

Comentários:

Cadê Você Bernadette?, escrito pela romancista Maria Semple, é um livro extremamente peculiar! Particularmente falando, sua narrativa incomum me proporcionou uma nova experiência de leitura; uma experiência que acabou indo além, e que me agradou em vários sentidos. E é bom estar aqui para contar a vocês em que sentido minhas expectativas foram gratificadas.

Bernadette Fox tem sérios problemas com as pessoas; ela faz qualquer coisa para evitá-las. Quando sua filha, Bee, a pede de presente uma viagem (em família) para a Antártida, inicia-se uma saga de acontecimentos, trapalhadas e maus entendidos que fazem da nossa protagonista uma anti-heroína... tudo porquê Bernadette é uma antissocial assumida.

Esses incidentes, por sua vez, levam ao seu desaparecimento, e é junto a Bee que, aos poucos, vamos descobrindo o que realmente aconteceu. A menina, com um incrível instinto de detetive, vai unindo vários documentos que nos dão a chance de juntar os fatos que ocorreram antes, durante e depois do sumiço de Bernadette. Em resumo trata-se de um livro dentro de um livro, proposta que acabou deixando a narrativa mais descritiva... e incrivelmente instigante.

Maria Semple criou um enredo singular: múltiplos gêneros (cartas, e-mails, SMS, boletins do FBI, diálogos, palestras, etc), fatos reais em meio ao irreal, personagens secundários que são destaques (e inclusive fundamentais para que haja a devida compreensão sobre a personagem principal) e muito sentimentalismo. Tudo isso desenvolvido sob forte humor. A autora foi muito criativa e ousada, pois mesmo com uma narrativa tão rica, ela conseguiu ser coerente do início ao fim.

Uma das coisas mais legais que a trama nos passa é a intensa relação de mãe e filha que Bernadette e Bee compartilham – uma devoção que nos faz torcer por elas. Outra lição retirada neste livro é que maus entendidos e falta de comunicação podem nos colocar em muitas ciladas... Bernadette passou por muita coisa complicada, e parte delas se deve às suas trapalhadas e confusões.

Infelizmente, como nenhuma obra é totalizada, eu não curti muito a resolução do desaparecimento. Sinceramente, achei tudo muito fantasioso e improvável. Além disso, confesso que achei algumas partes um pouco monótonas (a obra é dividida em oito), mesmo que sejam fundamentais. Claro que toda a obra compensa, até porque o desfecho (capítulo final) traz uma sensação de missão cumprida – além da obra ser muito bem inscrita.

Por essas e outras eu super recomendo o livro. Não se trata de uma história de mulherzinha. Você vai se envolver, vai rir, vai se tornar um(a) tiete de Bernadette, vai idolatrar a autora por sua genialidade e vai querer reler essa trama mais vezes. Pois é. Um verdadeiro e delicioso quebra-cabeça que todo mundo deveria conhecer.

A leitura deste livro é resultado do projeto 'Leitura Compartilhada', em parceria com o Clóvis Marcelo (De Frente Com os Livros) e a Érika (Relicário). Confira no vídeo abaixo mais algumas considerações sobre a história pautada, e saiba mais sobre nosso o projeto. Em abril voltaremos com mais uma edição, desta vez sobre Eleanor e Park, de Rainbow Rowell.