Na resenha sobre o livro A Festa é Minha e eu Choro se eu Quiser (Maria Clara Drummond) há comentários acerca da simplicidade da obra, que inclusive é uma das características mais notórias da trama. Ela se apresenta por meio de vários trechos legais, e eu gostaria de mostrar alguns deles à vocês. Apreciem!!  :))
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"São as festas, são as meninas, os amigos badalados que te querem sempre por perto, é ouvir toda hora você é o máximo! de pessoas que também são o máximo... (...) ganhar mais e mais dinheiro e conhecer mais e mas gente e assim vai crescendo seu status e sua suposta felicidade, que na verdade já deixou de ser felicidade há muito tempo, lá na sua primeira conquista, e agora é só um turbilhão de acontecimentos instagramados que vão se multiplicando..." [P. 11]

"Para tudo na vida existe ressaca, mesmo sem álcool, mesmo sem drogas, mesmo sem mar. E isso é muito chato." [P. 27]

"Enfim, é tudo a mesma coisa, competição boba por valores imaginários. Porque felicidades, que é o que todos deveriam almejar, em vez dessas bobices mundanas, não é palpável nem verificável, mesmo no mundo abstrato dos sentimentos. A felicidade é além-sentimento.  (...) E por ser tão difícil, tão imaterial e além-abstrato, desistimos dela por princípio e tentamos nos contentar com bobices terrenas." [P. 31]

"Quem sou eu? Minha tristeza é inerente à minha personalidade ou apenas uma doença a ser tratada para que eu possa voltar a estar saudável? Se todo mundo sofre, por que preciso abreviar esse sofriimento com um remédio?" [P. 41]

"Parece que é preciso um esforço enorme para aceitar a dor como fato da vida. Sou mimado e quero a felicidades logo." [P. 57]

"Há um bloqueio criado por nós em algum lugar da nossa alma que separa o que nós somos e o que nós mostramos para o mundo, e o resultado disso é que todos somos superficiais e deprimidos ao mesmo tempo. São duas esferas que lutam dentro de nós - a depressão tenta nos aprofundar forçosamente e a insustentável obrigação de sermos felizes o tempo todo torna a superficialidade a única escolha a ser feita." [P. 67]
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Fica aí mais uma vez a dica para quem tá à procura de enredos que tratem os problemas da nossa geração, ou para aqueles que curtem uma boa filosofia de vida. Recomendo!
Até mais!


Há algumas semanas eu contei por aqui um pouquinho da minha experiência como administradora de um Clube do Livro (para quem ainda não viu basta acessar AQUI). Desta vez, resolvi comentar sobre a prática de um Clube de Leitura, na qual venho tendo a oportunidade de vivenciar através do projeto Leitura Compartilhada.

Ilustração da Leitura Compartilhada de "A Insustentável Leveza do Ser" (Milan Kundera).

Diferente de um Clube do Livro, que envolve público (onde as pessoas não precisam necessariamente ter lido o que será exposto), sorteios e uma apresentação bem dinâmica, um Clube de Leitura tem características mais intimistas, geralmente com poucas pessoas envolvidas, cuja conversa – que diz respeito a uma leitura específica – é bem impessoal. 

Trata-se, basicamente, de um grupo com três, quatro, cinco, talvez até seis pessoas, que irão sentar (após ter lido o mesmo livro em um mesmo período de tempo) e conversar a respeito. Nesse diálogo certamente haverão comentários prós e/ou contrários à obra, afinal cada um tem um jeito de ver e perceber as coisas. E isso é o mais legal! É a sua opinião junto as demais que irão se unir em um debate interessante e talvez até infindável. E depois, por que não acrescentar tudo isso a um bom lanche?

Esse é o momento em que você e seus amigos poderão se dar a chance de ler coisas diferentes, ou coisas que há muito tempo vocês querem ler, ao mesmo tempo em que poderão sair do âmbito virtual para ter com quem conversar sem o receio de ter "falado demais". Além da oportunidade de ter uma tarde diferente, regada de uma boa conversa, muita literatura e altos planos para os próximos encontros.

E não há regras! Você pode fazer isso todo mês, ou cada dois, três meses... o importante é fazer disso uma rotina. No projeto Leitura Compartilhada é assim. Clóvis, Érika e eu sorteamos um livro (com base nas indicações de cada um), nos propomos a realizar a leitura numa mesma data, e depois marcamos uma tarde para tagarelar sobre o que foi lido. E, como blogueiros que somos, resolvemos trazer um pouquinho dessas conversas para vocês através dos nossos vídeos. A nossa ideia é incentivá-lo a fazer o mesmo.

Mas você não precisa ser blogueiro... basta ser apaixonado por novas histórias, assim como nós. E se você for desses que ainda não possui muitos amigos leitores em sua cidade, por que não fazer isso com os amigos virtuais? Colegas blogueiros, de pages, facebook, skoob e afins? A tecnologia nos fornece uma série de possibilidades... uma conversa por skype é uma delas. Pense a respeito!

Chega de ler livros e não ter com quem conversar. E olha que quem tá falando isso é uma blogueira que sempre tá escrevendo sobre o que lê... mas como nem todos fazem isso, fica aí o incentivo para a criação de Clubes de Leitura. Eu garanto a vocês que a experiência é ótima... não há complicações, tampouco regras. Existe apenas a vontade de tornar a leitura algo menos individual.

Até mais!


Título: A Insustentável Leveza do Ser
Autor: Milan Kundera
Edição: 4
Editora: Bis
Páginas: 413
ISBN: 9789896600624
Nota: 3,5 de 5

SINOPSE: Essa é a história de quatro adultos capazes de quase tudo para vivenciar o erotismo que desejam para si. Como limites, encontram um tempo histórico politicamente opressivo e o caráter enigmático da existência humana. Ainda assim, eles conseguem nos mostra como, na vida, tudo aquilo que escolhemos e apreciamos pela leveza acaba bem cedo se revelando de um peso insustentável. Apenas, talvez, a vivacidade e a mobilidade da inteligência escapam à condenação - as qualidades de que se compõe o romance e que pertencem a um universo que não é mais aquele do viver. 
Comentários:

Sinceramente, nunca passou pela minha cabeça ler Milan Kundera. Mas, como eu estou sempre aberta a novas experiências literárias, fiquei animada quando A Insustentável Leveza do Ser foi a obra sorteada para a terceira edição do Leitura Compartilhada com a Érika (Reliário) e o Clóvis (De Frente Com os Livros). Como esse é o livro mais popular de Kundera, acho que comecei com tudo. Ou quase.

Os personagens principais são Tereza, Tomas, Sabina e Franz. Tereza tem um espírito sensível e fora educada de forma repulsiva. Ao conhecer Tomas, sua felicidade é depositada inteiramente a ele, que, por outro lado, vive em meio a libertinagem e possui sérias dificuldades para aventurar-se amorosamente. Franz é idealista e sonhador, e, assim como Tereza, personifica o peso da vida. E Sabina é a versão feminina de Tomas; ambos representam a leveza. Em outras palavras, são eles que nos mostram, através de suas escolhas, o peso insustentável que baliza a vida.

A narrativa envolve as relações amorosas das personalidades citadas acima, unindo-se (quase sempre de forma conturbada) à filosofia, política, comunismo, mitologia, erotismo, comportamento humano, literatura, e muito mais. Embora o livro seja de 1982, a história se passa em 1968 e é permeada pela invasão russa à Tchecoslováquia e pelo clima de tensão política que pairava na cidade de Praga naqueles dias.

Mais do que uma enredo de teor político, porém, A Insustentável Leveza do Ser traz um verdadeiro ensaio filosófico. E isso de forma alguma é um problema, se não fosse pelas constantes "saídas" que o autor faz através de comentários excessivos, onde ele reflete as situações quase como um personagem. Em outras palavras, apesar de ser um narrador observador, Kundera acaba fazendo parte do enredo quando faz questão de não deixar nossos pensamentos livres. Isso, de certo modo, deixou a obra extensa, por vezes até cansativa, e com pouquíssimos diálogos graças as muitas observações.

Outras coisa que me incomodou foi a cronologia da história. Às vezes o autor, do nada, voltava para assuntos ou cenas já trabalhadas antes, como se tivesse lembrado naquele momento de contar uma coisa que já havia ficado para traz, fazendo questão também de suscitar a ideia sob o ponto de vista de outro personagem... enfim, eu não tenho problemas com histórias atemporais, mas, mesmo que esta tenha parecido mais com uma conversa informal, soou um pouco confuso.

Apesar disso, a leitura vale a pena pelas sublimes questões levantadas: qual o real sentido da vida? Devemos ser leves ou carregar o peso? Comprometer-se ou não? As respostas parecem óbvias, mas são mais complicadas do que imaginamos. De acordo com o autor, "procuramos sempre o peso das responsabilidades, quando o que na verdade almejamos é a leveza da liberdade".

Em contrapartida, Kundera também afirma: "seu drama não era o drama do peso, mas da leveza. O que se abatera sobre ela não era um fardo, mas a insustentável leveza do ser." Portanto, recomendo para quem se interessa por filosofia, história e política. Quem não tem aspiração por esses temas, ou não tem uma certa "bagagem" de vida, talvez não irá desfrutar dessa história de forma completa.

Mais considerações sobre A Insustentável Leveza do Ser podem ser adquiridas abaixo.


 

Título: A Festa é Minha e eu Choro se eu Quiser
Autor: Maria Clara Drummond
Edição: 1
Editora: Guarda-Chuva
Páginas: 84
ISBN: 9788599537299
Nota: 3,5 de 5

SINOPSE: Davi, o narrador do livro de estreia da jornalista carioca Maria Clara Drummond, sabe exatamente o que está atraindo para sua vida quando aceita uma proposta de emprego que se encaixa com suas aspirações, além de fazê-lo sair do Rio de Janeiro para São Paulo. À medida que sua carreira deslancha, a angústia e as incertezas aumentam, alojado de maneira incômoda no seu flat minimalista e clean.
O que torna Davi um narrador tão cativante não é o fato de encarar uma crise existencial em meio a antidepressivos, vernissages e bebedeiras, mas o quanto ele está ciente do processo pelo qual está passando, mesmo sem conseguir controlar muito bem sua necessidade de estar ao mesmo tempo dentro da cena e fora dela, de querer participar do universo cheio de glamour que sua fama recém adquirida lhe proporciona e ao mesmo tempo desprezar todo esse mundo de festas e drogas.
Comentários:

Sabe aquele tipo de leitura que você não espera fazer? Melhor ainda é quando isso ocorre e a surpresa é boa, certo? Recentemente eu tive essa através de A Festa é Minha e eu Choro se eu Quiser, de Maria Clara Drummond. O livro foi enviado pela Editora Guarda-Chuva, parceira do blog.

A trama nos apresenta Davi, narrador e personagem principal, aspirante a cineasta e um fiel baladeiro. Davi tem muitos amigos, mas parece não conseguir confiar a eles suas crises existenciais. Para ele, as pessoas não curtem questionar a vida, tampouco baixo astral e problemas alheios. E quem acaba se tornando sua grande vítima para um desabafo sincero? O leitor, é claro.

Davi tem problemas na consciência, e por isso acaba se afastando dos amigos de infância para não ter que falar sobre sua vida; sobre sua felicidade (ou falta dela). Ele acredita que ser feliz requer um peso, e expõe a ideia de que ter sucesso pode não ser exatamente o que parece.

É esse o dilema que norteia as 84 páginas do livro, onde somos levados a pensar sobre o que o dinheiro pode ou não comprar. Parecer um pouco clichê, mas, na realidade, a autora trata a temática na  percepção real da nossa geração, afinal, vivemos em uma sociedade que dá vez sobretudo à fama – por vezes vencida pela melancolia.

A simplicidade é um elemento de destaque no livro, assim como os incontáveis trechos reflexivos e profundos. A trama, no entanto, não é aprofundada, por isso é difícil apegar-se aos personagens. Contudo, ela cumpre o papel de suscitar questões filosóficas interessantes para os amantes da vida.

O que me incomodou foi apenas a estrutura do texto. Sempre corrido, instantâneo e sem quebra de parágrafos. Evidentemente, isso nos mostra a consciência desconexa de Davi, mas ainda assim tive a impressão de estar lendo algo desfigurado. Por outro lado, o livro é fisicamente maravilhoso. A Editora fez um belo trabalho de edição, desde a capa à divisão dos capítulos, fonte e tipo de folha... ficou tudo muito caprichado.

Portando, fica a recomendação para quem quer pensar sobre os problemas da geração (a partir dos anos 2000), para quem curte uma boa filosofia de vida (numa visão atual e jovem, também), ou para quem quer experimentar algo novo... começar por um trabalho nacional talvez seja uma ótima pedida.