Ray Douglas Bradbury é o mais novo entre os três filhos de Leonard e Esther Bradbury. Nascido em Illinois (EUA) no ano de 1920, Ray e sua família costumavam viajar muito pelo interior dos Estados Unidos devido ao trabalho de seu pai, que era técnico em instalação de linhas telefônicas. Em 1934 eles se fixaram na cidade de Los Angeles, Califórnia.

Apesar de não ter uma formação acadêmica – pois Ray só chegou a completar o segundo grau – seus estudos continuaram por conta própria, e isso o ajudou a torna-lo um dos maiores escritores de ficção da chamada Era Dourada. A prova disso foi que enquanto trabalhava como jornaleiro no ano de 1938, Ray costumava frequentar uma biblioteca pública cujo contato permitiu o lançamento do seu primeiro conto de ficção científica, ao qual ele intitulou de ''Hollerbochen's Dilemma''.

Após a publicação do seu primeiro conto, Ray passa a contribuir com diversos periódicos de ficção, e em 1942 publica ''The Lake'', onde definiu de vez seu estilo de escrita: ficção científica com pitadas de terror e suspense.

Na vida pessoal, Ray se casou com Marguerite McClure em 1947, mesmo ano em que publica ''Dark Carnival'', uma coleção de contos de terror. Maggie era apaixonada por livros e literatura, mais do que qualquer outra coisa, e isso contribuiu significativamente para a carreira de Bradbury no âmbito literário. Era ela quem ofertava o sustento da família na grande Los Angeles, isso numa época em que as mulheres não se atreviam a fazer coisas do isso, o que permitiu com que Ray ficasse em casa aperfeiçoando sua arte, formando seu estilo, e posteriormente enviando seu material para editores em todo o continente. Ele não teria tido essa oportunidade se ela não atuasse em uma jornada de trabalho convencional, o que, muito provavelmente, teria sido a sentença de morte para a sua carreira de escritor. Maggie morreu em 2003 deixando-o quatro filhas (Susan, Ramona, Bettina, e Alexandra) e oito netos (Júlia, Claire, Georgia, Mallory, Daniel, Casey-Ray, Samuel e Theodore). 
 
Ray Bradbury é um desses raros indivíduos cuja escrita mudou a forma como as pessoas pensam. Sua reputação como um escritor de coragem e visão foi estabelecida com a publicação de ''The Martian Chronicles'', em 1950, que descreve as primeiras tentativas de pessoas da Terra para conquistar e colonizar Marte. Sempre futurista, Ray escreveu em toda sua vida mais de 30 livros, 600 contos e numerosos poemas e ensaios. Entre suas obras encontra-se também o famoso ''Fahrenheit 451'', publicado em 1953. Este é considerada por muitos a obra-prima do autor, que o fez levar o Prêmio Hugo de Ficção Científica em 1954, e que mais tarde viraria um filme pelas mãos do cineasta François Truffaut. Vale ressaltar que seus contos foram sugeridos em mais de 1.000 currículos escolares como leitura recomendada. 

Além de seus livros, contos e ensaios, o escritor também criou roteiros para animações da TV. Por isso, por suas contribuições para a ficção científica na literatura, no cinema e na televisão, foi que em abril de 2002 Bradbury ganhou uma estrela em sua homenagem colocada na famosa ''Calçada da Fama'' de Holywood.

Ray, que nunca gostou de ser citado como um autor de ficção científica, mas de fantasia, nos deixou recentemente, falecido em 2012, aos 91 anos de idade.

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Título: Fahrenheit 451
Autor: Ray Bradbury
Edição:  1
Editora: Globo
Páginas: 256
ISBN: 9788525046444
Nota: 4 de 5

SINOPSE: A obra de Bradbury descreve um governo totalitário, num futuro incerto, mas próximo, que proíbe qualquer livro ou tipo de leitura, prevendo que o povo possa ficar instruído e se rebelar. Tudo é controlado e as pessoas só têm conhecimento dos fatos por aparelhos de TVs instalados em suas casas ou em praças ao ar livre. O livro conta a história de Guy Montag, que no início tem prazer com sua profissão de bombeiro, cuja função nessa sociedade imune a incêndios é queimar livros e tudo que diga respeito à leitura. Quando Montag conhece Clarisse McClellan, uma menina de dezesseis anos que reflete sobre o mundo à sua volta e que o instiga a fazer o mesmo, ele percebe o quanto tem sido infeliz no seu relacionamento com a esposa, Mildred. Ele passa a se sentir incomodado com sua profissão e descontente com a autoridade e com os cidadãos. A partir daí, o protagonista tenta mudar a sociedade e encontrar sua felicidade.

Comentários:

Reflexivo e denso definem a genialidade da obra pautada. Uma distopia que ascende pensamentos assustadores na atual comunidade de leitores assíduos. Essa é a proposta de Ray Bradbury quando apresenta em Fahrenheit 451 uma sociedade onde a leitura é considerada pecaminosa e inaceitável.

Para o governo, provavelmente, ler era o mesmo que ter autonomia para contestar a gerência daqueles que os lideravam. Ter esse poder não era viável para os poderosos, portanto, a leitura, dentre todos os seus tipos e gêneros, era proibida, e o povo concordava e abarcava essa ideia (inevitavelmente. Ou não). Mildred, a esposa do protagonista Guy Montag, é o exemplo mais notório nesse sentido. Na trama ela passa grande parte do dia fixada nos programas televisivos (cujos personagens ela chama de ''parentes''). Inclusive, nessa sociedade há toda uma evolução tecnológica, pois até a TV tem o poder de interação com os telespectadores. Era persuasivo, alienador e deixava – nitidamente – insano o pensamento de qualquer.

Já Montag é um bombeiro dedicado. Seu trabalho é combater a leitura por meio da queima de livros, onde em sua maioria eram descobertos através de denúncias anônimas. Mas sua vida é  transformada após uma conversa com sua vizinha, Clarisse, que o confronta com várias perguntas e fantasias que ele jamais havia refletido antes. A jovem o faz cogitar sobre questões que envolvem a vida e o sentido da mesma, ainda que sem querer, e isso o deixa intrigado.

Já pensou um mundo onde todo e qualquer livro é proibido? Ou talvez um lugar onde a indústria televisiva visa a apresentação de uma sociedade feliz e sem preocupação ou problemas? Incômodo pensar nisso, não? Tornou-se uma enfermidade até para Montag, que ficou a beira da loucura ao ter suas ideologias postas à prova por ele mesmo; ao pensar que alguma coisa não estava certa em meio às regras ditadas, fazendo com que ele se rebele contra essas normas.

Montag, a partir de certo momento da história, passe a esconder livros em sua própria casa (justo ele que ajuda a condenar a leitura). A curiosidade para saber por que havia pessoas que se arriscavam tanto por causa do conhecimento, o fez passar por uma série acontecimentos que nos faz refletir sobre a nossa sociedade, sobre o futuro, e sobre o que é certo ou errado.

Bradbury trás de forma interessante uma sociedade massificada e totalmente alienada pela publicação de anúncios comerciais para o consumo sem a menor cogitação. Logo, a TV era ali o principal meio de comunicação e conhecimento, gerando um retrocesso na memória e linguagem das pessoas, a exemplo de Mildred. Deste modo, o livro é analítico, mas peca pelo fato de que, apesar de ter várias ideias incríveis, nem todas acabam sendo desenvolvidas com maior amplitude. Senti falta de uma maior abrangência em alguns acontecimentos. É tudo muito bom, mas tenho certeza que algumas coisas poderiam ser melhores exploradas, já que a proposta suscita muitas questões pensantes.

No geral, a obra é dividida em três etapas, e possui um texto de linguagem clara, futurista e instigante aos olhos de qualquer leitor. São bons os ganchos para os fatos que se seguem, apesar da história ser corrida graças a sua breve capitulação. O desfecho é tão satisfatório que chega a ser incrível. Maravilhoso pela particularidade empregada, de modo que nos faz crer que nem tudo está perdido (em nossa sociedade, sim). A dedicação de alguns e a esperança por um mundo onde a leitura é imprescindível nos põe em prova sobre nossas ações e sobre como alguns tratam o ato de ler.

Recomendo a trama sem medo de errar, e para qualquer tipo de ledor. Essa é uma distopia que todos deveriam ler, e não por conta do gênero, mas por sua singularidade e elementos que fazem parte de nós enquanto consumidores e, principalmente, leitores.


 Você precisa entender que nossa civilização é tão vasta que não podemos permitir que nossas minorias sejam transtornadas e agitadas. Pergunte a si mesmo: o que queremos neste país, acima de tudo? Não foi o que você ouviu durante toda a vida? Eu quero ser feliz, é o que diz todo mundo. Bem, elas não são? Não cuidamos para que sempre estejam em movimento, sempre se divertindo? É para isso que vivemos, não acha? Para o prazer, a excitação? E você tem que admitir que nossa cultura fornece as duas coisas em profusão.


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