Olá à todos os bookaholics!

Bem, como eu disse em um dos posts passados, vocês iriam observar algumas mudancinhas. A coluna das Citações semanais agora será postada toda quarta-feira do mês.

Hoje exponho aqui um trechinho do livro de Fernando Pessoa, O Livro do Desassossego, com o semi-heterônimo Bernardo Soares, os quais já falei muito por aqui. Por ser uma obra magnifíca e por ser de autoria do maior poeta da língua portuguesa, sempre é bom lembrá-lo ^^
Você pode encontrar mais informações sobre a obra e as biografias aqui ;)

287.

"Adoramos a perfeição, porque a não podemos ter; repugna-la-íamos, se a tivéssemos. O perfeito é o desumano, porque o humano é imperfeito.
O ódio surdo ao paraíso - o desejo como o da pobre infeliz de [que] houvesse campo no céu. Sim, não são os êxtases do abstracto, nem as maravilhas do absoluto que podem encantar uma alma que sente: são os lares e as encostas dos montes, as ilhas verdes nos mares azuis, os caminhos através de árvores e as largas horas de repouso nas quintas ancestrais, ainda que as nunca tenhamos. Se não houver terra no céu, mais vale não haver céu. Seja então tudo o nada, e acabe o romance que não tinha enredo.
Para poder obter a perfeição fora precisa uma frieza de fora do homem e não haveria então coração de homem com que amar a própria perfeição.
Pasmamos, adorando, da tensão para o perfeito dos grandes artistas. Amamos a sua aproximação do perfeito, porém a amamos porque é só aproximação."

Algo bem reflexivo, não? Magnifíca obra :)

Deixem comentários, pessoal... E fiquem à vontade para lerem o link exposto no corpo do texto...

Um grande beijo a todos ;*

Olá, blogueiros!

Trago hoje para vocês a biografia de um dos grandes mestres não só do Modernismo, mas também da Literatura Portuguesa. É claro que falamos de Fernando Pessoa, um grande sábio.
Um poeta mexicano ao falar sobre Pessoa, afirma: “os poetas não têm biografia. Sua obra é sua biografia [...] nada em sua vida é surpreendente - nada, exceto seus poemas.”
O poeta fez de seu cotidiano modesto algo lindamente filosófico criando heterônimos, "outras vidas", para que então pudesse expressar seus outros "eus" existentes dentro de si. Assim ele explicou:

"Por qualquer motivo temperamental que me não proponho analisar, nem importa que analise, construí dentro de mim várias personagens distintas entre si e de mim, personagens essas a que atribuí poemas vários que não são como eu, nos meus sentimentos e idéias, os escreveria.
Assim têm estes poemas de Caeiro, os de Ricardo Reis e os de Álvaro de Campos que ser considerados. Não há que buscar em quaisquer deles ideias ou sentimentos meus, pois muitos deles exprimem idéias que não aceito, sentimentos que nunca tive. Há simplesmente que os ler como estão, que é aliás como se deve ler."


Mas vamos ver onde tudo começou...


No dia 13 de Junho de 1888 nasce Fernando António Nogueira Pessoa em Lisboa, filho de Maria Madalena Pinheiro Nogueira e de Joaquim de Seabra Pessoa.

Sua juventude é passada em Lisboa até os acontecimentos das mortes de seu pai e seu irmão, Jorge, respectivamente.
Sua mãe conhece o cônsul de Portugal em Durban e o levam para uma viagem à África do Sul. Vive por lá entre 1896 e 1905. Com essa vivência é que Pessoa se coloca em contato com grandes autores de língua inglesa e passa a ter uma influência decisiva no seu nível cultural e intelectual.

Volta a Portugal com a intenção de cursar Letras, aos 17 anos. Vive primeiramente com uma tia e depois com a avó paterna. Acabou por frequentar muito pouco o curso e se guia somente através do seu enorme conhecimento acerca da língua inglesa, onde passa a trabalhar com diversos escritórios em Lisboa em questões de correspondência comercial.

Ophélia Queirós foi uma paixão confessa a qual teve uma relação forte, intensa, porém, muitas das vezes, distante. Talvez Ophélia fora a única mulher a conhecer seu lado menos melancólico e menos enigmático.

Foi o grande prosador do Modernismo (Futurismo em Portugal) e obtinha sucesso com suas expressões por ele mesmo e por seus heterônimos. Os mais famosos são: Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis. Bernardo Soares é um tipo particular de heteronímia, sendo considerado pelo criador um "semi-heterónimo". Pessoa teve várias participações literárias em diversos veículos de sua época: Athena, Presença, Orpheu, Centauro, Portugal Futurista, Contemporânea, Exílio, A Águia, Gládio.

"O seu percurso intelectual dificilmente se descreve em poucas linhas. É sobretudo o relato de uma, grande viagem de descoberta, à procura de algo divino mas sempre desconhecido. Essa procura efectuou-a Pessoa com recurso a todas as armas - metafísicas, religiosas, racionalistas - mas sem ter chegado a uma conclusão definitiva, enfim exclamando que todos os caminhos são verdadeiros e que o que é preciso é navegar (no mundo das ideias)."

Nos últimos anos de sua vida desencadeiam-se várias decepções por projetos não realizados, nem ao menos parcialmente. Desespera-se ao não ver resultado em seus esforços. Foi-se antes que soubesse ao menos o início da sua realização e a importância do que nos deixaria de legado.

Fernando Pessoa falece a 30 de Novembro de 1935, motivado por uma crise hepática por consumir muito álcool durante anos. No centenário de seu nascimento seus restos mortais passaram do Cemitério dos Prazeres para o Mosteiro dos Jerónimos em Belém.
Em vida foi publicado apenas o livro Mensagem, um grande poema épico.

Em minhas próximas postagens falarei também das biografias de seus heterônimos, além de suas características literárias ;)

Título: Livro do Desassossego
Autor:
Fernando Pessoa (Bernardo Soares)
Edição:

Editora:
Companhia de Bolso
Páginas:
559
ISBN: 978-85-359-0
849-7

E aí, pessoal? ;)

Acabei de terminar minha leitura, ainda que por vezes bastante sortida, sem uma ordem propriamente dita, deste maravilhoso clássico do ma
ior poeta português: Fernando Pessoa.
Amo trechos reflexivos e que por ventura, de início, pareçam indecifráveis. Digo de modo geral que o livro se enquadra verdadeiramente em uma obra de teor altamente poético e prosaico simultanemante, com uma leveza em detalhes, sutileza nas descrições, opiniões cotidianas com conteúdo... Deve se notar toda a beleza singular nas palavras deste heterônimo (ou semiheterônimo, como verão na resenha). Enfim, acho que a resenha descrevrá bem todo o contexto da obra e com alguns trechinhos para que os bookaholics possam apreciar.



"O meu estado de espírito obriga-me agora a trabalhar bastante, sem querer, no Livro do Desassossego. Mas tudo fra
gmentos, fragmentos, fragmentos."

Explicando acerca do livro e de si mesmo, este trecho revela parte integrante da carta de Fernando Pessoa ao amigo Armando Cortes-Rodrigues. É assim que ele define em partes o Livro do Desassossego, a obra em prosa de um de seus grandes heterônimos: Bernardo Soares.
Há que se explicar que, segundo a própria concepção do autor, Soares "É um semiheterónimo. [...] porque, não sendo a personalidade a minha, é, não difere
nte da minha, mas uma simples mutilação dela." (Prólogo)
Soares não possuía personalidade ou humor marcante, ao contrário de Pessoa. Na verdade, era o seu autor com alguns elementos em falta.

O
Livro do Desassossego retrata a condição da alma humana e realiza deste modo, uma identificação do leitor com as confissões e sensações expostas em cada fragmento solto. Em toda a prosa poética se sobressaem novos rumos de pensamento, novas reflexões e uma sensibilidade que vai se aflorando a cada trecho, a cada efeito. Sintetiza angústias, sonhos (e estes são melhores num plano imaginário do que realizados), incertezas, moral, conhecimento... São fatos sem uma ordem e tempo propriamente definidos. Não há repouso. "Dono do mundo em mim, como de terras que não posso trazer comigo" - diz o narrador. - "Nestas impressões sem nexo, nem desejo de nexo, narro indiferentemente a minha autobiografia sem factos, a minha história sem vida. São as minhas Confissões, e, se nelas nada digo, é que nada tenho que dizer."

Por que utilitzar neste livro um título como este? Antes de possuir este nome, Pessoa havia bolado uma lista com 14 supostos títulos como "Intervalo Doloroso" e "Paisagem de Chuva", que acabaram por servir repetidas vezes para textos independentes e que compartilhavam desta mesma temática.
"A palavra desassossego refere-se não tanto a uma perturbação existencial no homem como à inquietação e incerteza inerentes em tudo e agora destiladas no narrador retórico. Mas a força dum outro desassossego - mais íntimo e profundo - impõe-se pouco a pouco, e o livro assume dimensões inesperadas." (Prólogo)

Constitui-se nesta obra uma espécie de biografia aproximada do próprio Fernando Pessoa. É um caderno que contém todo o essencial da sua "diversidade heteronímica":

"Faço paisagens com o que sinto. Faço férias das sensações. Compreendo bem as bordadoras por mágoa e as que fazem meia porque há vida. Minha tia velha fazia paciências durante o infinito do serão. Estas confissões de sentir são paciências minhas. Não as interpreto, como quem usasse cartas para saber o destino. Não as ausculto, porque nas paciências as cartas não têm propriamente valia." (Trecho 12)

 
Uma obra existencialista e sendo um tipo de "manual do sonhador" - "Um manual de filosofia menos os conceitos e as definições, uma bíblia menos Deus e os seus seguidores" - não é de leitura ordenada e seguindo numerações. Os conselhos, filosofias, p
ensamentos necessitam ser degustados com uma leitura mais a fundo, sem nenhuma pressa. Este livro é daqueles que se deve ficar eternamente em sua cabeceira. A partir do momento em que se inicia sua leitura, descobre-se que não há início e não há um fim, propondo então que o leitor se entregue a magia dessa eterna brevidade contínua. É para sempre.

"Escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida. A música embala, as artes visuais animam, as artes vivas (como a dança e o representar) entretêm. A primeira, porém, afasta-se da vida por fazer dela um sono; as segundas, contudo, não se afastam da vida - umas porque usam de fórmulas visíveis e portanto vitais, outras porque vivem da mesma vida humana. Não é esse o caso da literatura. Essa simula a vida. Um romance é uma história do que nunca foi e um drama é um rom
ance dado sem narrativa. Um poema é a expressão de ideias ou de sentimentos em linguagem que ninguém emprega, pois que ninguém fala em verso." (Trecho 116)


(Nota: Excelente!)