Olá, pessoal!

Hoje venho com o intuito de trazer uma resenha diferente e de um autor mais que conhecido e clássico: Fernando Pessoa. Ao ler dois livros de bolso de sua autoria, resolvi fazer uma resenha de um deles e foi aí que pensei: por que não resenhar sobre poemas? Ao mesmo tempo que é pouco ou nada comum ver por aí poemas sendo aclamados ou mesmo discutidos, trouxe a proposta de reflexão acerca de trechos minuciosos e que, de alguma forma, podem despertar uma nova paixão literária em você, leitor e fazer com que o mundo de Pessoa e seus heterônimos seja ainda mais uma nova descoberta ou aprofundamento para o seu conhecimento ;)

O livro em questão é de um dos heterônimos de Pessoa, Ricardo Reis. (Ao contrário dos pseudônimos - vários nomes para uma mesma personalidade - os heterônimos constituem várias pessoas que habitam um único poeta. Cada um deles tem a sua própria biografia, sua temática poética singular e seu estilo específico.). Aí vai um trechinho da sua biografia:

Ricardo Reis nasceu em 1887 no Porto e estudou em um colégio de jesuítas. Foi médico e fixou residência no Brasil desde 1919. Reis é o heterônimo neoclássico, da métrica perfeita, da temática pagã e da consciência da passagem rápida do tempo. Entre seus temas recorrentes podemos citar o do sofrimento diante dos mistérios da vida e da morte e as relações com as suas musas, Lídia, Neera e Cloe. Segundo a avaliação de Pessoa, “Reis escreve melhor do que eu, mas com um purismo que considero exagerado”.

Vamos à sinopse:


Este volume apresenta ao leitor todas as odes atribuídas a Reis. Também estão incluídos no livro versos e poemas anotados com pequenas alterações feitas pelo poeta, chamados de variantes, inseridos como notas de rodapé. De acordo com a biografia criada pelo próprio Pessoa, Ricardo Reis nasceu em 1887 no Porto e estudou em um colégio de jesuítas. Foi médico e fixou residência no Brasil desde 1919. Reis é o heterônimo neoclássico, da métrica perfeita, da temática pagã e da consciência da passagem rápida do tempo. Entre seus temas recorrentes podemos citar o do sofrimento diante dos mistérios da vida e da morte e as relações com as suas musas, Lídia, Neera e Cloe. Segundo a avaliação de Pessoa, “Reis escreve melhor do que eu, mas com um purismo que considero exagerado”. 

Antes de tudo, é importante se esclarecer no que se constitui uma ode. É um modelo clássico de composição poética oriundo da Grécia Antiga. Tipo de texto cantado e acompanhado pela lira (instrumento musical). Possuidor de estrofes semelhantes pela métrica estabelecida, geralmente se compõe de quatro versos em cada estrofe, porém, não é regra geral.

"Poema lírico de forma complexa e variável, a ode caracteriza-se pelo tom elevado e sublime com que trata determinado assunto. As literaturas ocidentais modernas aproveitaram sobretudo, do ponto de vista da forma, a ode composta por três unidades estróficas, correspondentes, no desenvolvimento da idéia do poema, à estrofe, à antístrofe (cantada pelo coro, originalmente) e ao epodo (conclusão do poema). A ode comportava uma série de esquemas métricos e rítmicos, de acordo com os quais era classificada."


Obra e Estilo

As primeiras obras de Ricardo Reis foram publicadas na revista Athena (fundada por Pessoa) em 1924. Algum tempo depois foram publicadas mais oito odes na revista Presença. O restante dos poemas e prosas são de publicação póstuma.
Como Fernando Pessoa mesmo disse, Reis é o heterônimo neoclássico, da métrica perfeita, da temática pagã e da consciência da passagem rápida do tempo. Dessa forma, se acomete de algumas características em comum com Alberto Caeiro, outro heterônimo de Pessoa (bio aqui).
Com grande uso de hipérbato (figura de linguagem que consiste em trocar a ordem direta dos termos da oração (sujeito, verbo, complementos, adjuntos) ou de nomes e seus determinantes.), Reis também se mune de vocabulário extremamente erudito, preciso e com manifestação imperativa demonstrando atitude filosófica.
Podemos encontrar lemas árcades inclusos em sua obra, a exemplo do Carpe Diem (Aproveite o Dia, aproveite com intensidade o presente) e Aurea Mediocritas (Mediocridade Áurea, ou seja, valorizar as coisas cotidianas). Além disso, Reis procura aceitar calmamente o destino e opta por não viver grandes emoções, sendo uma espécie de disciplina. Faz renúncia da vida através da recusa do amor e da consciência da inutilidade do esforço de mudança, já que o destino “é força superior ao homem”.  Recusa o amor para evitar desilusões de maneira que nada modifique a serenidade e razão já estabelecidas, uma vez que tudo na vida tem um fim. 

Trechos que gostei e reservei para compartilhar com vocês:

Pequeno é o espaço que de nós separa
O que havemos de ser quando morrermos.
Não conhecemos quem será o morto
        De hoje que então acaba.
Só o passado, comum a nós e a ele,
Será indício de que a nossa alma
Persiste e como antiga ama, conta
        Histórias esquecidas…
Se pudéssemos pôr o pensamento
Com esta visão adentro de ideia
Que havemos de ter naquela hora,
        Estranhos olharíamos
O que somos, cuidando ver um outro
E o espaço temporal que hoje habitamos
Luz onde nossa alma nasceu
        Alheia antes de a termos.
 p.94

(31/1/1922)

Pequenos fragmentos da contra-capa:

Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.


A realidade
Sempre é maios ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós própios.

[...]

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.


Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.


E como último legado do mestre, deixo breve texto dito por ele:

"Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa: ‘Navegar é preciso, viver não é preciso’.
Quero pra mim o espírito desta frase, transformada a forma para a casar com o que eu sou: Viver não é necessário; o que é necessário é criar.
Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso. Só quero torná-la grande, ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a minha alma a lenha desse fogo.
Só quero torná-la de toda a humanidade; ainda que para isso tenha de a perder como minha.
Cada vez mais assim penso. Cada vez mais ponho na essência anímica do meu sangue o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir para a evolução da humanidade.
É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa raça."

Bem, pessoal... Por hoje é só! Espero que tenham gostado ;)
Ótimo domingo a todos!

Olá à todos os bookaholics!

Bem, como eu disse em um dos posts passados, vocês iriam observar algumas mudancinhas. A coluna das Citações semanais agora será postada toda quarta-feira do mês.

Hoje exponho aqui um trechinho do livro de Fernando Pessoa, O Livro do Desassossego, com o semi-heterônimo Bernardo Soares, os quais já falei muito por aqui. Por ser uma obra magnifíca e por ser de autoria do maior poeta da língua portuguesa, sempre é bom lembrá-lo ^^
Você pode encontrar mais informações sobre a obra e as biografias aqui ;)

287.

"Adoramos a perfeição, porque a não podemos ter; repugna-la-íamos, se a tivéssemos. O perfeito é o desumano, porque o humano é imperfeito.
O ódio surdo ao paraíso - o desejo como o da pobre infeliz de [que] houvesse campo no céu. Sim, não são os êxtases do abstracto, nem as maravilhas do absoluto que podem encantar uma alma que sente: são os lares e as encostas dos montes, as ilhas verdes nos mares azuis, os caminhos através de árvores e as largas horas de repouso nas quintas ancestrais, ainda que as nunca tenhamos. Se não houver terra no céu, mais vale não haver céu. Seja então tudo o nada, e acabe o romance que não tinha enredo.
Para poder obter a perfeição fora precisa uma frieza de fora do homem e não haveria então coração de homem com que amar a própria perfeição.
Pasmamos, adorando, da tensão para o perfeito dos grandes artistas. Amamos a sua aproximação do perfeito, porém a amamos porque é só aproximação."

Algo bem reflexivo, não? Magnifíca obra :)

Deixem comentários, pessoal... E fiquem à vontade para lerem o link exposto no corpo do texto...

Um grande beijo a todos ;*

Olá, pessoal!

Se encerram hoje as biografias dos heterônimos do grande Fernando Pessoa. Trouxe hoje dois deles: Ricardo Reis e Álvaro de Campos.


Ricardo Reis

Como afirma Fernando Pessoa: "Ricardo Reis nasceu no Porto. Educado em colégio de jesuítas, é médico e vive no Brasil desde 1919, pois expatriou-se espontaneamente por ser monárquico. É latinista por educação alheia, e um semi-helenista por educação própria."

Ricardo Reis é uma espécie de discípulo de Alberto Caeiro (bio aqui) que era um camponês autodidata desprovido de erudição. Ele se concentrava em defender valores tradicionais em questões literárias e políticas. Retorna a admiração de seu mestre pela natureza de maneira neoclássica. Se utiliza de lemas árcades como Locus Amoenus (local ameno) e Carpe Diem (aproveitar o momento) e também busca a Aurea Mediocritas (equilíbrio do ouro).

Reis possui o equilíbrio contido dos clássicos. Deixa de ser uma simplicidade natural e passa a ser estudada, forjada através do intelecto:

“Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim como em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.”

Tem uma linguagem clássica e vocabulário erudito, apresentando poemas metrificados e com linguagem rebuscada.
Os poemas são Odes (poemas líricos de tom alegre e entusiásticos, cantados pelos gregos). Neles há pastores como Lídia, Neera ou Cloe:

"Prazer, mas devagar,
Lídia, que a sorte àqueles não é grata
Que lhe das mãos arrancam.
Furtivos, retiremos do horto mundo
Os deprendandos pomos."

As odes de Reis recorrem sempre aos deuses da mitologia grega. Este paganismo se afasta do pensamento de Caeiro que não se deve pensar em Deus. Para Ricardo Reis os deuses controlam o destino e estão acima de tudo:

"Acima da verdade estão os deuses.
Nossa ciência é uma falhada cópia
Da certeza com que eles
Sabem que há o Universo."


Álvaro de Campos

Álvaro segundo Pessoa: “Nasceu em Tavira, teve uma educação vulgar de Liceu; depois foi mandado para a Escócia estudar engenharia, primeiro mecânica e depois naval. Numas férias fez a viagem ao Oriente de onde resultou o Opiário. Agora está aqui em Lisboa em inatividade."

Álvaro de Campos apresenta três fases distintas em sua poesia. Ela se constitui primeiramente pelo decadentismo simbolista, seguidamente pelo futurismo e por fim, escreve poemas pessimistas e desiludidos.
No poema Opiário, o engenheiro Campos, influenciado pelo simbolismo, ainda metrifica e rima. Escreve quadras, estrofes de quatro versos, de teor autobiográfico e já se apresenta amargurado e insatisfeito:

"Eu fingi que estudei engenharia.
Vivi na Escócia. Visitei a Irlanda.
Meu coração é uma avozinha que anda
Pedindo esmolas às portas da alegria."

Campos em seguida se influencia pelo futurismo, adotando um estilo centrado na agitação da cidade e entre as máquinas:

"À dolorosa luz das lâmpadas elétricas da fábrica
Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos."

Os poemas de Álvaro de Campos são marcados pela oralidade e pela prolixidade que se espalha em versos longos, próximos da prosa. Despreza a rima ou métrica regular. Despeja seus versos em torrentes de incontrolável desabafo.
A última fase do heterônimo Álvaro de Campos, em que pontifica o poema Tabacaria, apresenta um poeta amargurado, refletindo de forma pessimista e desiludida sobre a existência:

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo."

Álvaro de Campos também confessa-se discípulo de Alberto Caeiro. Ao contrário de Reis, Campos se revela inquieto e frustrado por não conseguir seguir os preceitos de Caeiro. No poema que se inicia pelo verso "Mestre, meu mestre querido", dialoga com Caeiro, revelando toda sua angústia:

"Meu mestre, meu coração não aprendeu a tua serenidade.
Meu coração não aprendeu nada.
(...)
A calma que tinhas, deste-ma, e foi-me inquietação."


É isso, pessoal! ;)
Espero que esta coletânea de biografias e a resenha de um livro (aqui) do grande Fernando Pessoa tenham surtido algum interesse no que se diz respeito à literatura clássica e valorização de obras e autores tão magnifícos quanto ele :)

Amanhã tem resenha aqui no blog... Não percam! ;)

Olá, Blogueiros! ;)

Dando sequência às biografias dos heterônimos de Fernando Pessoa, é desta forma que se deu a vida do "mestre" Alberto Caeiro:

Nasceu em Lisboa a 16 de abril de 1889. Estudou apenas até a 4ª classe. Sendo orfão de pai e mãe, não exerceu qualquer profissão, mas viveu quase toda a sua vida no campo, no Ribatejo, na quinta da sua tia-avó idosa. Foi então que escreveu o "Guardador de Rebanhos" e depois "O Pastor Amoroso". Voltou no fim da visa para Lisboa e acabou por escrever "Os Poemas Inconjuntos" antes de falecer pela tuberculose, em 1915, quando tinha somente vinte e seis anos.

Pessoa cria esta biografia que se encaixa perfeitamente à sua poesia, como se pode observar na série "O Guardador de Rebanhos". O processo criativo espontâneo traduz muito da busca fundamental de Caeiro: naturalidade.


"Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é.
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem por que ama, nem o que é amar...”

Alberto Caeiro possui a linguagem simples e limitada de um poeta camponês pouco instruído. Exprime constantemente o desejo de não pensar e rejeita a meditação longa e profunda, característica presente no Simbolismo.
Assim, constantemente opõe à metafísica o desejo de não pensar. Faz da oposição à reflexão a matéria básica das suas reflexões.

“Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?”

Caeiro insiste e gosta de ver as coisas como elas realmente são, sem qualquer tipo de misticismo. Reflete e atribui a elas significados ou sentimentos humanos:

“Os poetas místicos são filósofos doentes,
E os filósofos são homens doidos.

Porque os poetas místicos dizem que as flores sentem
E dizem que as pedras têm alma
E que os rios têm êxtases ao luar.

Mas as flores, se sentissem, não eram flores,
Eram gente;
E se as pedras tivessem alma, eram coisas vivas, não eram pedras;
E se os rios tivessem êxtases ao luar,
Os rios seriam homens doentes.”

Enquanto românticos e simbolistas possuíam poesias carregadas de religiosidade, Alberto Caeiro de forma lógica e coerente, afasta-se da reflexão sobre Deus.

“Pensar em Deus é desobedecer a Deus,
Porque Deus quis que o não conhecêssemos,
Por isso se nos não mostrou...”

Em sua simplicidade e espontaneidade, Caeiro escreve veros brancos (sem rimas) e versos livres (sem métrica regular).

Vive cada instante sem se preocupar com o futuro e sem dor, pensa em envelhecer sem angústia e morrer sem desespero, aceita o mundo e a realidade tal qual como são e busca sentir sem pensar, ou seja, não procura sentido para a vida e para as coisas que lhe rodeiam.

É nessa simplicidade que terminamos a biografia deste heterônimo. Ainda vem mais por aí ;)

Olá, blogueiros!

Trago hoje para vocês a biografia de um dos grandes mestres não só do Modernismo, mas também da Literatura Portuguesa. É claro que falamos de Fernando Pessoa, um grande sábio.
Um poeta mexicano ao falar sobre Pessoa, afirma: “os poetas não têm biografia. Sua obra é sua biografia [...] nada em sua vida é surpreendente - nada, exceto seus poemas.”
O poeta fez de seu cotidiano modesto algo lindamente filosófico criando heterônimos, "outras vidas", para que então pudesse expressar seus outros "eus" existentes dentro de si. Assim ele explicou:

"Por qualquer motivo temperamental que me não proponho analisar, nem importa que analise, construí dentro de mim várias personagens distintas entre si e de mim, personagens essas a que atribuí poemas vários que não são como eu, nos meus sentimentos e idéias, os escreveria.
Assim têm estes poemas de Caeiro, os de Ricardo Reis e os de Álvaro de Campos que ser considerados. Não há que buscar em quaisquer deles ideias ou sentimentos meus, pois muitos deles exprimem idéias que não aceito, sentimentos que nunca tive. Há simplesmente que os ler como estão, que é aliás como se deve ler."


Mas vamos ver onde tudo começou...


No dia 13 de Junho de 1888 nasce Fernando António Nogueira Pessoa em Lisboa, filho de Maria Madalena Pinheiro Nogueira e de Joaquim de Seabra Pessoa.

Sua juventude é passada em Lisboa até os acontecimentos das mortes de seu pai e seu irmão, Jorge, respectivamente.
Sua mãe conhece o cônsul de Portugal em Durban e o levam para uma viagem à África do Sul. Vive por lá entre 1896 e 1905. Com essa vivência é que Pessoa se coloca em contato com grandes autores de língua inglesa e passa a ter uma influência decisiva no seu nível cultural e intelectual.

Volta a Portugal com a intenção de cursar Letras, aos 17 anos. Vive primeiramente com uma tia e depois com a avó paterna. Acabou por frequentar muito pouco o curso e se guia somente através do seu enorme conhecimento acerca da língua inglesa, onde passa a trabalhar com diversos escritórios em Lisboa em questões de correspondência comercial.

Ophélia Queirós foi uma paixão confessa a qual teve uma relação forte, intensa, porém, muitas das vezes, distante. Talvez Ophélia fora a única mulher a conhecer seu lado menos melancólico e menos enigmático.

Foi o grande prosador do Modernismo (Futurismo em Portugal) e obtinha sucesso com suas expressões por ele mesmo e por seus heterônimos. Os mais famosos são: Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis. Bernardo Soares é um tipo particular de heteronímia, sendo considerado pelo criador um "semi-heterónimo". Pessoa teve várias participações literárias em diversos veículos de sua época: Athena, Presença, Orpheu, Centauro, Portugal Futurista, Contemporânea, Exílio, A Águia, Gládio.

"O seu percurso intelectual dificilmente se descreve em poucas linhas. É sobretudo o relato de uma, grande viagem de descoberta, à procura de algo divino mas sempre desconhecido. Essa procura efectuou-a Pessoa com recurso a todas as armas - metafísicas, religiosas, racionalistas - mas sem ter chegado a uma conclusão definitiva, enfim exclamando que todos os caminhos são verdadeiros e que o que é preciso é navegar (no mundo das ideias)."

Nos últimos anos de sua vida desencadeiam-se várias decepções por projetos não realizados, nem ao menos parcialmente. Desespera-se ao não ver resultado em seus esforços. Foi-se antes que soubesse ao menos o início da sua realização e a importância do que nos deixaria de legado.

Fernando Pessoa falece a 30 de Novembro de 1935, motivado por uma crise hepática por consumir muito álcool durante anos. No centenário de seu nascimento seus restos mortais passaram do Cemitério dos Prazeres para o Mosteiro dos Jerónimos em Belém.
Em vida foi publicado apenas o livro Mensagem, um grande poema épico.

Em minhas próximas postagens falarei também das biografias de seus heterônimos, além de suas características literárias ;)

Título: Livro do Desassossego
Autor:
Fernando Pessoa (Bernardo Soares)
Edição:

Editora:
Companhia de Bolso
Páginas:
559
ISBN: 978-85-359-0
849-7

E aí, pessoal? ;)

Acabei de terminar minha leitura, ainda que por vezes bastante sortida, sem uma ordem propriamente dita, deste maravilhoso clássico do ma
ior poeta português: Fernando Pessoa.
Amo trechos reflexivos e que por ventura, de início, pareçam indecifráveis. Digo de modo geral que o livro se enquadra verdadeiramente em uma obra de teor altamente poético e prosaico simultanemante, com uma leveza em detalhes, sutileza nas descrições, opiniões cotidianas com conteúdo... Deve se notar toda a beleza singular nas palavras deste heterônimo (ou semiheterônimo, como verão na resenha). Enfim, acho que a resenha descrevrá bem todo o contexto da obra e com alguns trechinhos para que os bookaholics possam apreciar.



"O meu estado de espírito obriga-me agora a trabalhar bastante, sem querer, no Livro do Desassossego. Mas tudo fra
gmentos, fragmentos, fragmentos."

Explicando acerca do livro e de si mesmo, este trecho revela parte integrante da carta de Fernando Pessoa ao amigo Armando Cortes-Rodrigues. É assim que ele define em partes o Livro do Desassossego, a obra em prosa de um de seus grandes heterônimos: Bernardo Soares.
Há que se explicar que, segundo a própria concepção do autor, Soares "É um semiheterónimo. [...] porque, não sendo a personalidade a minha, é, não difere
nte da minha, mas uma simples mutilação dela." (Prólogo)
Soares não possuía personalidade ou humor marcante, ao contrário de Pessoa. Na verdade, era o seu autor com alguns elementos em falta.

O
Livro do Desassossego retrata a condição da alma humana e realiza deste modo, uma identificação do leitor com as confissões e sensações expostas em cada fragmento solto. Em toda a prosa poética se sobressaem novos rumos de pensamento, novas reflexões e uma sensibilidade que vai se aflorando a cada trecho, a cada efeito. Sintetiza angústias, sonhos (e estes são melhores num plano imaginário do que realizados), incertezas, moral, conhecimento... São fatos sem uma ordem e tempo propriamente definidos. Não há repouso. "Dono do mundo em mim, como de terras que não posso trazer comigo" - diz o narrador. - "Nestas impressões sem nexo, nem desejo de nexo, narro indiferentemente a minha autobiografia sem factos, a minha história sem vida. São as minhas Confissões, e, se nelas nada digo, é que nada tenho que dizer."

Por que utilitzar neste livro um título como este? Antes de possuir este nome, Pessoa havia bolado uma lista com 14 supostos títulos como "Intervalo Doloroso" e "Paisagem de Chuva", que acabaram por servir repetidas vezes para textos independentes e que compartilhavam desta mesma temática.
"A palavra desassossego refere-se não tanto a uma perturbação existencial no homem como à inquietação e incerteza inerentes em tudo e agora destiladas no narrador retórico. Mas a força dum outro desassossego - mais íntimo e profundo - impõe-se pouco a pouco, e o livro assume dimensões inesperadas." (Prólogo)

Constitui-se nesta obra uma espécie de biografia aproximada do próprio Fernando Pessoa. É um caderno que contém todo o essencial da sua "diversidade heteronímica":

"Faço paisagens com o que sinto. Faço férias das sensações. Compreendo bem as bordadoras por mágoa e as que fazem meia porque há vida. Minha tia velha fazia paciências durante o infinito do serão. Estas confissões de sentir são paciências minhas. Não as interpreto, como quem usasse cartas para saber o destino. Não as ausculto, porque nas paciências as cartas não têm propriamente valia." (Trecho 12)

 
Uma obra existencialista e sendo um tipo de "manual do sonhador" - "Um manual de filosofia menos os conceitos e as definições, uma bíblia menos Deus e os seus seguidores" - não é de leitura ordenada e seguindo numerações. Os conselhos, filosofias, p
ensamentos necessitam ser degustados com uma leitura mais a fundo, sem nenhuma pressa. Este livro é daqueles que se deve ficar eternamente em sua cabeceira. A partir do momento em que se inicia sua leitura, descobre-se que não há início e não há um fim, propondo então que o leitor se entregue a magia dessa eterna brevidade contínua. É para sempre.

"Escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida. A música embala, as artes visuais animam, as artes vivas (como a dança e o representar) entretêm. A primeira, porém, afasta-se da vida por fazer dela um sono; as segundas, contudo, não se afastam da vida - umas porque usam de fórmulas visíveis e portanto vitais, outras porque vivem da mesma vida humana. Não é esse o caso da literatura. Essa simula a vida. Um romance é uma história do que nunca foi e um drama é um rom
ance dado sem narrativa. Um poema é a expressão de ideias ou de sentimentos em linguagem que ninguém emprega, pois que ninguém fala em verso." (Trecho 116)


(Nota: Excelente!)