Olá, pessoal!

Hoje eu vim com mais uma indicação, só que desta vez, diferente. Quis trazer uma espécie de lista de livros da literatura francesa.
Sou muito suspeita pra indicar, pois, pra quem não sabe, estou prestando vestibular para o curso de Letras e pretendo fazer como língua o francês, que pra mim é uma linda língua e recheada de ótimas obras!
A literatura francesa é uma das mais influentes de todo o mundo. Foi lá que começaram a surgir as grandes escolas de literatura e de onde provém escritores como Victor Hugo, Paul Valéry, Gustave Flaubert, Marcel Proust e meu amado Albert Camus (biografia dele aqui).


Bem, vamos aos livros? Separei três para vocês ;)


O Estrangeiro - Albert Camus

"Hoje morreu a minha mãe. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo:
'Sua mãe falecida: Enterro amanhã. Sentidos pêsames'.
Isto não quer dizer nada. Talvez tenha sido ontem."
- Um dos clássicos do meu autor preferido (com resenha aqui), O Estrangeiro fez com que Camus ganhasse o prêmio Nobel de Literatura em 1957.
Com uma história simples e ao mesmo tempo crítica, consegue se tornar um clássico também para quem lê.



Madame Bovary - Gustave Flaubert


"...A loucura assaltava-a, teve medo e chegou a controlar-se, mas confusamente, é verdade; pois não lembrava a causa de seu horrível estado, isto é, a questão do dinheiro. Sofria somente em seu amor e sentia sua alma abandoná-la com aquela lembrança, como os feridos, ao agonizar, sentem a existência esvair-se por sua chaga que sangra."
O romance de Gustave Flaubert foi a obra que deu origem ao Realismo e que é baseada em fatos da vida real. A história retrata a infidelidade de Emma para com Charles Bovary, seu marido, sendo esse o motivo que levou o autor a condenação por insultar a moral e os costumes da época. Uma narrativa tão bem aclamada durante gerações merece nossa conferida ;)

O Pequeno Príncipe - Antoine de Saint-Exupéry

"—Tu és ainda para mim um garoto igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim ÚNICO no mundo. E eu serei para ti única no mundo..."
Esse clássico não poderia faltar! "Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas"... É com essa frase que o livro ganhou o mundo, com tradução para diversas línguas e conquistando a todos os públicos com lições maravilhosas e passagens sensacionais! Leitura mais que recomendada e obrigatória :D

E aí, galera? O que acharam das indicações?

Grande abraço aos leitores queridos ;)

Albert Camus foi um escritor francês nascido a 7 de novembro de 1913 em Mondovi, e teve seu falecimento em Villeblevin, a 4 de janeiro de 1960. De família francesa e nascido na colónia argelina, estuda em Argel em difíceis condições econômicas. Começa a trabalhar como jornalista e ator. Em 1940, já em Paris, participa na resistência contra a invasão alemã. Após a guerra é chefe de redação do jornal Combat. Em 1942 consagra-se com o romance O Estrangeiro, epítome do existencialismo, e o ensaio O Mito de Sísifo. A Peste, romance publicado em 1947, consagra-o como grande escritor. Posteriormente dedica-se com intensidade ao teatro (O Equívoco, Calígula, O Estado de Sítio, Os Justos). Publica um novo ensaio em 1951 (O Homem Revoltado), faz adaptações teatrais de Lope de Vega, Faulkner e Dostoiévsky e escreve A Queda e os contos de O Exílio e o Reino. Em 1957 obtém o Prémio Nobel de Literatura. Após a sua morte num acidente de automóvel, publica-se o seu Diário e algumas obras de juventude.



Na base da obra de ficção e ensaística de Camus está a reflexão sobre o absurdo. O homem de Camus, o protagonista de O Estrangeiro, Mersault, procura a justificação da sua existência e não a encontra, convertendo-se assim num estranho, um estrangeiro para si mesmo. Mersault mata inexplicavelmente um homem («porque fazia calor») e, sem procurar justificação, aceita ser condenado à morte. O Mito de Sísifo é uma reflexão filosófica sobre o suicídio em que o autor chega a sugerir a possibilidade de uma moral e, inclusive, de um heroísmo, do absurdo, se se vive com lucidez e plena consciência. A Peste é uma alegoria da guerra e da ocupação nazi e, mais amplamente, da condição humana, através da descrição de uma cidade assediada pela epidemia. Em O Homem Revoltado a reflexão existencialista acaba por descobrir que só revoltando-se pode o homem dar sentido a um mundo dominado pelo sem sentido.

Camus é, com Sartre, o escritor mais representativo do existencialismo francês. A sua reflexão inicial sobre o absurdo e o suicídio, a solidão e a morte, dirige-se gradualmente para a esperança e a solidariedade humanas como possíveis soluções do drama do absurdo. Esta trajetória serve de apoio a um aproveitamento interessado do seu pensamento e da sua figura pelos círculos católicos conscientes da pobreza intelectual dos seus autores. Por outro lado, a límpida perfeição estilística da sua escrita e a sobriedade da sua inspiração novelesca contribuem, em grande medida, para a eficácia da sua expressão literária.

Sua obra é vastíssima, e aqui estão alguns destaques:

  • L'Étranger (O estrangeiro)
  • Le Mythe de Sisyphe (O Mito de Sísifo) {Ensaio sobre o absurdo}
  • La peste (A Peste)
  • La chute (A Queda)

É isso aí, pessoal! Camus é grandioso! *-*

Não deixem de conferir amanhã por aqui outras novidades do mundo literário! ;)
Até mais ^^

"Hoje morreu a minha mãe. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo:
'Sua mãe falecida: Enterro amanhã. Sentidos pêsames'.
Isto não quer dizer nada. Talvez tenha sido ontem."

É desta forma que Albert Camus inicia seu romance, o mais clássico e aquele que reflete claramente sua "corrente de ideias": o absurdo.

O Estrangeiro, lançado em 1942, é parte de uma trilogia formada por um romance (L'étranger - O Estrangeiro), um ensaio (Le Mythe de Sisyphe - O Mito de Sísifo) e de uma peça de teatro (Caligula), que descrevem com amplitude a sua filosofia do absurdo.
Juntamente com Jean-Paul Sartre, amigo próximo e filósofo, viveu em uma época conturbada rodeada de fortes acontecimentos históricos. Vendo uma sociedade pouco preocupada com valores ideais humanos, conseguiu desmitificar outros valores impostos, de cunho contrário. Isso foi fundamental ao se criar o romance em questão. Embora negasse a aceitar o rótulo de existencialista, teve claras influências de Sartre.
O enredo narra a história de Mersault, um homem que vive uma vida totalmente comum e que nem precisaria ou devesse ser contada. Está em meio a várias emoções, mas não é capaz de sentir ou demonstrar nada. Tudo "tanto faz". Sua vida se desenrola como se ele fosse um estrangeiro não para um país, e sim, para a humanidade.
Trabalha, tem seus afazeres, se relaciona sexualmente com mulheres, dentre outras coisas comuns. Seu interior mostra alguém conformado com as situações propostas pela vida, possuindo uma espécie de consciência de que não pode mudar os rumos dela e se adapta à essas condições impostas pelo andar do tempo, aproveitando o que de bom lhe surge.
Sua vida tem uma reviravolta quando, por um impensado momento e sem motivo algum, comete um grave crime matando um árabe. A partir daí é preso e passa a esperar seu julgamento. Sente tédio na prisão, fica agoniado e sem a "presença" de cigarros e mulheres. É aí que se tem a descoberta da beleza da vida, quando se encontra privado de tudo...
Na obra, as personagens não são muito exploradas, mas ainda assim podemos sentir fortemente a personalidade de cada. O autor não criou algo grandioso como os escritores de sua época. O livro não é grande, mas o tempo psicológico é tão bem trabalhado que se pode sentir a demora do processo, o aguardo pelo julgamento, o tédio por não ter o que fazer...
Ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 1957 com o livro "A Peste" (resenha aqui), Camus se consagra ainda mais como um dos grandes escritores da literatura contemporânea e que traz sempre uma crítica relacionada com aspectos históricos e sociais.
Podemos estabelecer aqui uma intertextualidade com outro romance já resenhado por mim: A Metamorfose, de Franz Kafka (resenha aqui).
Embora minha opinião já mencionada aqui no blog em sua resenha não tenha sido positiva, consigo ver a semelhança entre as duas obras, onde se questionam as leis, ideologias e instituições que são impostas durante todo o processo de formação de um cidadão. É tudo muito frágil.
A indiferença que predomina em Gregor Samsa, personagem principal de "A Metamorfose", é a mesma encontrada em Mersault que, diante de um júri, é apresentado como um demônio por não ter chorado no enterro de sua mãe, quando na realidade deveria ser julgado pela morte do árabe que matara na praia.
É... Talvez Mersault fosse um homem tão estranho quanto uma barata gigante.
O que posso dizer de resto é que foi uma história em que eu realmente me identifiquei com o contexto geral dela. Adoro a narrativa de Camus e espero em breve poder trazer outras obras não só dele, mas também indicar outros livros pouco lidos ou conhecidos. A nossa função também é essa: divulgar e incetivar além dos que estão na lista de mais vendidos.

Continuem acompanhando, pessoal! Em breve, mais novidades ;)

Ótimo domingo à todos! ;*

Olá, pessoal! ;)

Em mais um dia de citação, trago a vocês um trecho do livro "A Peste" de Albert Camus. Neste romance, temos um estado de sítio propiciado pela Peste Negra que assola a cidade de Oran, onde se passa a trama. Uma narrativa de teor histórico e que reflete a principal característica da obra de Camus: a revolta.

O drama físico e psicológico dos personagens se traduz bem neste trecho:

“Experimentavam assim o sofrimento profundo de todos os prisioneiros e de todos os exilados, ou seja, viver com uma memória que não serve para nada. Esse próprio passado, sobre o qual refletiam sem cessar, tinha apenas o gosto do arrependimento. Na verdade, gostariam de poder acrescentar-lhe tudo quanto lamentavam não ter feito, quando ainda podiam fazê-lo, junto a esse ou aquela que esperavam - assim como a todas as circunstâncias, mesmo relativamente felizes, da sua vida de prisioneiros misturavam o ausente, e o resultado não podia satisfazê-los. Impacientes com o presente, inimigos do passado e privados do futuro, parecíamo-nos assim efetivamente com aqueles que a justiça ou o ódio humano fazem viver atrás das grades. Para terminar, o único meio de escapar a estas férias insuportáveis era, atrvés da imaginção, recolocar em movimento os trens e encher as horas com os repetidos sons de uma campainha que, no entanto, se obstinava no silêncio."


Página 67 e 68, Parte II

Em 1950, a cidade de Oran encontra-se isolada do mundo por causa da peste. A cidade é condenada ao isolamento completo para evitar a propagação da epidemia. Como reagirão a isso os habitantes? Alguns tentam fugir, outros se resignam, outros dela tiram proveito. O tempo passa e os habitantes clamam que a calamidade não cessará nunca. Oran se assemalha a um campo de concentração onde a vida de cada um esta ameaçada. Se esta obra literária é pura ficção, ela nos remete entretanto a uma realidade inquietante: a Segunda Guerra Mundial e os campos de concentração. Exceto que, na obra, a calamidade é a peste e não seres humanos. A realidade é mais desoladora que a ficção...

O romance A Peste, de Albert Camus, foi interpretado como uma espécie de alegoria ao nazismo e a qualquer regime totalitário. O livro possui alusões à ocupações ou ditaduras, bem como o fato de se iniciar um estado de sítio em Oran, cidade onde se passa a trama. Com isso, Camus faz uma crítica evidenciando um dos personagens, o jornalista Raymond Rambert, como uma representação do bloqueio da liberdade de imprensa.

É uma trama de resistência, em todos os sentidos da palavra. A resistência política e a resistência de cidadãos tão comuns passarem a, de repente, a uma nova rotina, um novo começo. A Peste traz à tona questões de ordem filosófica e existencial, como por exemplo uma filosofia acerca da morte. Ali então é representado o quanto a dor, o medo, a incerteza e a solidão gerados pela peste podem reavivar e resgatar sentimentos puros do ser humano. Até aquele momento sentimentos como compaixão, piedade e solidariedade se encontravam ocultos. Nesse caso, a morte não se passa como uma personagem de cunho natural e sim, algo desolador, trágico, com sofrimento. É algo que surge repentinamente gerando um fim gradual e devassador. Aqui, ao mesmo tempo que representa separação, ela também representa a esperança, marcando o fim de um ciclo, iniciando outro e modificando a perspectiva e visão de mundo de todos os concidadãos.
A Peste se passa em Oran, cidade argelina onde a vida é rotineira. Pessoas vivem trabalhando para gerar riquezas. Seguem uma rotina monótona, a exemplo de casais que vivem juntos por força do costume. Não há espaço para devaneios amorosos. “Em Oran, como no resto do mundo, por falta de tempo ou reflexão, somos obrigados a amar sem saber...”
Toda essa paz e estabilidade se revoluciona a partir do momento em que ratos aparecem e fazem da cidade um caos com uma doença, até então desconhecida. A morte, personagem unipresente, alcança os moradores e muda tudo aquilo que estava "construído" dentre sonhos e idealizações. Todos estão assustados, sem saberem o que pensar frente à situação que só é reconhecida depois de vários acontecimentos e falecimentos: peste bubônica.
Camus representa em sua obra duas características marcantes: o absurdo e a revolta. O absurdo, pelo homem se dizer tão racional e buscar esse racionalismo em tudo; possuir um anseio de explicação dos vários mistérios que tangem a vida. Obter como resultado a revolta por ver que não pode encontrar essa racionalidade e resolução dos mistérios, achando apenas desordem. A morte representa um aspecto do absurdo, e a revolta, estreita os laços de fraternidade. "O homem revoltado é aquele que enfrenta seu próprio absurdo.”

"Em épocas normais, sabíamos todos, conscientemente ou não, que não há amor que não se possa superar e aceitávamos no entanto, com maior ou menor tranqulidade, que o nosso permanecesse medíocre. Mas a recordação é mais exigente. E, muito logicamente, esta desgraça que nos vinha do exterior e que atingia toda uma cidade não nos trazia apenas um sofrimento injusto, com que teríamos podido indignar-nos; levava-nos a incitar mais sofrimentos em nós mesmos, fazendo-nos, assim, consentir na dor. Essa era uma das maneiras que a doença tinha de desviar a atenção e baralhar as cartas."

(Nota: Muito Bom!)